30 de jun. de 2012

Cimento, Argamassa e outros Quetais

a soma dos quadrados dos catetos
é igual a um arremedo de musa.

antipoesia matemática,
geométrica,
da musa geneticamente arquitetada
(quadrada)
nos laboratórios da nossa macróbia vanguarda;
da musa que não diz nada,
não faz nada,
não é nada.
(-- musa?
-- ossada.)

talvez tenha sido poesia,
um dia.
agora é só concreto:
é rígida e estática e fria;
uma lápide rachada.

Dos Limites do Poder Estatal

Soubesse a Vigilância Sanitária
dos excessos cometidos
sob a égide do sexo,
interditar-nos-ia a todos,
sem que recurso coubesse,
ex offício a genitália.


Tentativa de Invasão

Cresce uma flor no meio-fio
(talvez alguma espécie
de lírio silvestre),
pétalas e sépalas intrépidas
através de uma trinca no concreto.
Mas logo virá a roda de uma bicicleta,
ou a equipe de limpeza do prédio,
acabar com a festa da penetra.

As flores são, mesmo, idiotas completas.

26 de jun. de 2012

Ocaso, FF


Um sol vermelho
despenca --
como uma kombi sem freio
caindo da ponte --
e atinge em cheio o horizonte.

26 de fev. de 2012

Quando Voltar Ei Rei D. Sebastião

Um dia El Rei D. Sebastião vai voltar:
El Rei redivivo, ressurgido dos mortos,
virá restaurar o Império
e o exército d'El Rei D. Sebastião
serão extras de um filme de Romero.
Quando voltar, El Rei D. Sebastião
nos vai fazer frequentar a igreja.
El Rei D. Sebastião vai coibir o consumo abusivo de cerveja;
proibir ir à praia sem roupa;
acabar com essa pouca-vergonha
de transar antes do casamento,
comer carne às sextas-feiras,
dormir mulher com mulher
e barbado com barbado.
D. Sebastião I, O Desejado, quando vier,
vai por fim a essa mania da Colônia
de querer ser Sede da Coroa.
Um dia El Rei D. Sebastião,
à frente de uma armada de mil caravelas,
vai botar ordem nesta zona.
Um dia El Rei D. Sebastião vai voltar
e acabar com essa bela balbúrdia.
Nesse dia, por via das dúvidas,
me mudo prum outro lugar.

20º Andar, Face Oeste

A tribo das nuvens vermelhas.
A tribo das nuvens cinzentas.
E branco, e laranja, e violeta,
Dourado, amarelo, cor-de-telha:
O Sol assenta.

18 de fev. de 2012

Faísca

Uma lasca desprendeu-se da aurora boreal.
Verde-azulou mansinho
E foi-se embora. Sentia frio à deriva, tocada
Por ventos solares atmosfera afora,
Sem meta ou destino,
Sem nada.
Um fragmento dos fogos de artifício
De deuses primitivos
Quis, pra encurtar a história,
Abrigo num país tropical.
E eu fiz-lhe oferta, que não sou idiota, nem nada.
Agora vive numa gaveta do escritório.
E a altas horas da madrugada, canta
Só pra mim sua canção verde-azulada.
E se não canta mais em coro, e nem tão alto,
E nem tanto quanto outrora,
Canta o que e quando quer –
E até ensaia semitons em cor-de-rosa.

5 de out. de 2011

O Pesadelo de Xerxes

Estouro da manada
de elefantes impossíveis.
Rugem fileiras cerradas
de couraças siderúrgicas,
entranhas mecânicas
de estranhas ligas secretas.

Respiram fuligem:
as trombas eretas
exalam funis de fumaça,
emitem barridos balísticos,
rajadas, parábolas,
projéteis precisos.

Elefantes de ferro
no solo da Pérsia.
Pegadas no deserto,
rastros de esteira e lagarta
nas areias do Levante.

21 de set. de 2011

Roleta Russa

Jogar consigo o maior dos jogos de azar.
inspirar fundo, expirar. Apertar o gatilho, agora.
Sem saber se a bala no cilindro do revólver,
fosse ela ponteiro sobre a face de um relógio,
marcaria doze horas.

9 de set. de 2011

Pele

Pisa-te mal quem te acha feia.
Mas não eu, que te sei,
sob a máscara rude, delicada.

Pisa-te mal quem te tem medo e te acha fria.
Mas se te piso, São Paulo amada,
é como quem acaricia.

Cada passo a que me atrevo sobre o asfalto,
cada toque dos sapatos sobre as tuas avenidas
é como um afago, um agrado
sobre a pele da mulher querida.
Se percorro as tuas ruas e te toco o calçamento,
toco como quem toca, leve e lento,
as costas nuas da namorada.