9 de set. de 2011

Pele

Pisa-te mal quem te acha feia.
Mas não eu, que te sei,
sob a máscara rude, delicada.

Pisa-te mal quem te tem medo e te acha fria.
Mas se te piso, São Paulo amada,
é como quem acaricia.

Cada passo a que me atrevo sobre o asfalto,
cada toque dos sapatos sobre as tuas avenidas
é como um afago, um agrado
sobre a pele da mulher querida.
Se percorro as tuas ruas e te toco o calçamento,
toco como quem toca, leve e lento,
as costas nuas da namorada.

30 de ago. de 2011

PoesiaPod

PoesiaPod é um novo projeto do poeta Pedro Tostes com engenharia de áudio do Tomás Sá.
A cada semana o site põe no ar três poemas recitados (ou falados, mesmo) pelo autor, junto com fotos da sessão de gravação e dois ensaios curtinhos do Pedro: um sobre como rolou cada etapa; o outro sobre o material do autor da semana.
Primeiro foi o Ivan Antunes. Depois veio o Daniel Minchoni. Em seguida, o Donny Correia. O quarto da fila foi este vosso humilde servo. E vem muito mais por aí. O Pedro me disse quem são os já confirmados, mas não quero estragar a surpresa.
E os caras ainda inventaram de dar um para o comentário mais legal de cada semana no site.
Vai lá que vale a pena!

Alma Lisa

Explicar a poesia:
Empreitada tão vã, tão fútil,
tão irmã do desespero
quanto olhar no olho uma doze,
encarar sua órbita vazia
pra ver quem pisca primeiro.

20 de ago. de 2011

Buquês de Rosas Vermelhas

Olha a mulher que se acha feia.
Em casa, sozinha
numa noite de sexta-feira.

Uma taça de vinho
(é noite de sexta-feira).
No banheiro,
defronte o espelho,
a mulher que se acha feia
fita-se de frente e de lado,
brinda com seu reflexo
e sonha ver-se linda.
E sonha ver-se amada.

A mulher que se acha feia
reclinada na banheira.
Um livro e uma taça de vinho.
E o sonhar em segredo
com toques de dedos
que a conheçam tão bem
quanto ela se conhece.
Um breve tremer de pernas nuas.
Um gemido. Uma lágrima. Duas.
(a mulher que se acha feia, estranhamente,
chora, quando goza, o companheiro inexistente).

Gillette e uma taça de vinho.
A mulher que se acha feia,
com gestos bem calculados,
esculpe com todo o cuidado
os contornos dos pelos do púbis
que ninguém irá tocar.
E imagina ver no fluxo
dos jatos da jacuzzi,
surgindo dos pulsos,
buquês de rosas vermelhas
que ninguém jamais lhe deu.

9 de ago. de 2011

Coito

Seja a tinta o esperma.
Seja o sêmen
que despeja o pênis/pena
sobre a página vazia.
Seja a página a vagina
que o acolhe.
Que gera o poema.
Seja o poema sua prole.

24 de jul. de 2011

Meteorologia

Ela entra, irritada, e fala
da tempestade repentina,
da previsão do tempo,
da maldita sombrinha
largada num canto da sala.
Pouco escuto, mais atento
aos bicos dos seios
aguçados pelo vento;
às curvas que o tecido da camisa,
molhado de chuva,
em vez de ocultar, enfatiza.

16 de jul. de 2011

Código Coletivo

A Sandra Santos está com uma exposição bacanaça no Castelinho de POA. Segundo a prória:


"o enigma: código a ser desvendado, texto a ser capturado
o leitor é chamado a interagir no espaço entre texto e código...

Qr é uma modalidade bidimensional do código de barras: aquela figura antipática que exibe o preço do livro que é lido exclusivamente pela máquina.

A Exposição CODIGO COLETIVO reúne mais de cem poetas contemporâneos, cujos poemas foram codificados em QR, isto é, transformados em imagem, e projetados na parede. A proposta é de que que o leitor capture essas imagens através de um celular.

O Projeto, numa primeira fase, envolve professores e alunos das escolas da comunidade. As escolas, ao visitar a exposição, recebem adesivos dos poemas para colar em seus murais e participam de sorteios de vários objetos (camisetas, canecas, imãs, cadernos) com os códigos coloridos dos poemas, para vestir e usar poesia, literalmente. O sucesso do projeto entre os jovens leitores pode ser conferido nestes flashes das visitas.

Os poetas integraram a exposição, também em clima de mistério. Ninguém sabia dos demais participantes e nem mesmo que seus poemas seriam estudados e "colados" pela cidade. A única exceção era Laís Chaffe, do Cidade Poema, parceira e "expert" quando o assunto é colocar a poesia na rua e lhe dar asas.

Para completar o clima de mistério, a visita à exposição também é uma oportunidade de conhecer todo o Castelo do Alto da Bronze, que só abre suas portas em momentos especiais, como este. O Castelinho do Alto da Bronze é uma lenda urbana de Porto Alegre. O lugar já até protagonizou livro: A prisioneira do castelinho do Alto da Bronze [romance-reportagem sobre o imaginário urbano porto-alegrense dos anos 1940 sob influência da literatura e do cinema], de Juremir Machado.

Poetas que integram a Exposição:
Ademir Antonio Bacca - Ademir Assunção - Ademir Demarchi - Alberto Al-Chaer -Alexandre Brito - Allan Vidigal - Alma Welt - Alvaro Posselt - Ana Melo - Andrea Del Fuego -Andreia Laimer - Antonio Carlos Secchin - Armindo Trevisan - Astier Basilio - Augusto Bier - Barbara Lia - Barreto Poeta - Carlos Seabra - Celso Santana - Claudio Daniel - Cristina Desouza - Cristina Macedo - Diego Grando - Diego Petrarca - Dilan Camargo - E. M. De Melo e Castro - Edson Cruz - Eduardo Tornaghi - Elson Fróes - Estrela Ruiz Leminski - Fabio Bruggmann - Fabio Godoh -
Fabricio Carpinejar - Floriano Martins - Frank Jorge - Frederico Barbosa - Gilberto Wallace Battilana - Glauco Mattoso - Gustavo Dourado - Hugo Pontes - Igor Fagundes - Isabel Alamar - Jacqeline Aisenman - Jiddu Saldanha - José Aluisio Bahia - José Antônio Silva - José Inácio Vieira de Melo - José Geraldo Neres - Juliana Meira - Jurema Barreto de Sousa - Laís Chaffe - Lau Siqueira - Leo Lobos - Leonardo Brasiliense - Liana Timm - Lucia Santos - Luis Serguilha - Luis Turiba - Luiz de Miranda - Mano Melo - Marcelo Ariel - Marcelo Moraes Caetano - Marcelo Soriano - Marcelo Spalding - Marcílio Medeiros - Marco Celso Ruffel Viola - Mario Pirata - Marko Andrade - Muryel de Zoppa - Nei Duclós - Nicolas Behr - Nydia Bonetti -Orlando Bona Fº - Paco Cac - Paula Taitelbaum - Paulo de Toledo - Paulo Henrique Frias - Paulo Prates Jr - Pedro Stiehl - Regina Mello - Renato de Mattos Motta - Ricardo Mainieri - Ricardo Portugal - Ricardo Pozzo - Ricardo Silvestrin - Rodrigo Garcia Lopes - Rogerio Santos - Romério Rômulo -Ronaldo Werneck - Sandra Santos - Sidnei Schneider - Silas Correa Leite - Susanna Busatto - Talis Andrade - Tchello de Barros - Telma Scherer - Tulio Henrique Pereira -Valeria Tarelho - Wasil Sacharuk -Wender Montenegro - Wilmar Silva

Quando: De 15 a 25 de Julho de 2011 (abertura ao público, as escolas poderão agendar visitas até 30/07/2011)"

http://www.sandrasantos.com/QR-CODIGO.html

15 de jun. de 2011

Vocação

Passar pela vida como o enorme
cavalo baio da morte,
esmagando o mundo com os cascos.
Não que nem barata tonta,
que causa asco, se tanto,
jamais real dano;
algo mais como um elefante aflito,
paquiderme acometido de brutal labirintite.

6 de jun. de 2011

Dois

Quem tem saco pra essa lida,
essa coisa dividida?
Metade romaria, metade violenta,
um pouco mosh pit,
um pouco dança lenta
que se hoje é calmaria,
amanhã será tormenta
(quem tanto a gente ama,
tem horas que mal aguenta).

3 de jun. de 2011

Semântica

“Saudade” é uma palavra bonita
se a gente sabe o que significa
(mas, no fundo, não diz nada).
Melhor diziam os gregos antigos:
“nostalgia”,
que é a dor de sentir falta.