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24 de jul. de 2011

Meteorologia

Ela entra, irritada, e fala
da tempestade repentina,
da previsão do tempo,
da maldita sombrinha
largada num canto da sala.
Pouco escuto, mais atento
aos bicos dos seios
aguçados pelo vento;
às curvas que o tecido da camisa,
molhado de chuva,
em vez de ocultar, enfatiza.

5 de abr. de 2011

Servil

Se quiser, conte comigo
para nunca estar sozinha.
Deixe aos meus cuidados
a faxina e a cozinha,
levar as crianças pra escola
e fazer supermercado
(se quiser vir junto, obrigado,
mas nem pense em levar as sacolas).
Pra pregar botão, trocar pneu,
pagar conta no banco, varrer a calçada,
saiba a quem recorrer: eu.
Posso até lavar sua roupa,
passar as peças mais delicadas.
E pras horas em que isso não baste,
deixo ao seu serviço e vontade
meu pau de dez polegadas.

13 de mar. de 2011

Culto

Adora-me, genuflexa,
sê hetaera e ninfa,
venera em mim Príapo e Pã.
Recebe entre as mãos
o ícone e signo da tua devoção.
Acolhe sobre a língua
o sacramento, a eucaristia
que te dá teu deus pagão.

13 de dez. de 2010

Terra Incognita

Como se fosse eu navegante
do tempo do Descobrimento;
você Porto Seguro e eu caravela;
como se fosse eu entrada, bandeira,
e você Pindorama,
demarco, desbravo.
Você reclama, mas deixa.
Te estudo, te exploro.
Você se revela.
Abro trilhas na floresta,
mapeio a sua costa,
cada palmo do seu território.
Você protesta, mas gosta.

10 de dez. de 2010

Seios

Desculpe se pareço distante,
perdoe a distração,
o olhar alheio...
(não há atenção que resista
ao chamado dos seus seios)

7 de dez. de 2010

Taras

Inventa-me, amor, uma tara sem par.
Desvenda o universo das parafilias.
Revira grimórios, estelas, papiros,
revela em antigos mistérios e ritos
fetiches quaisquer que a nós dois enfeiticem
(é que o amor, meu amor, quase a tudo resiste,
mas não à armadilha fatal da mesmice).

5 de nov. de 2010

Cúpido

Cúpido, peço e não mo recusas:
entre as curvas
me revelas e descubro
teu tesouro mais oculto.

Cubro-te: atinges o cume
e sucumbes em decúbito.

6 de set. de 2010

Barbaridades

Conhecermo-nos na cama tu e eu de olhos vendados,
descobrirmo-nos no escuro pelo toque, em Braille, às cegas.
Te fazer gritar e, após, enquanto em gozo ainda ofegas,
começar tudo de novo, mas, agora, do outro lado.

Despejar sobre o teu corpo mel e leite condensado,
explorar, com boca e língua, cada dobra, curva e prega,
e jamais nada negar a quem jamais nada me nega:
oras, bolas, convenhamos, o que pode haver de errado?

Ter-te assim não sabe a vício, baixaria, nem maldade.
Desbravar a tua pele, conhecer cada orifício,
mapear o teu prazer e toda a tua anatomia --

é normal para um casal que tanto ama ter vontades.
E os pudicos que criticam e que dizem ver mal nisso,
não os culpo: sinto pena. Têm inveja, é o que eu diria!

3 de set. de 2010

Escolha

Não creio em pecado:
prefiro o profano
ao santo e ao sacro;
o laico ao sagrado;
o século, o sexo
ao céu e ao casto.

Trago-me ereto –
jamais genuflexo.

2 de ago. de 2010

Trajeto

Parto do alto.
Paro atrás da orelha esquerda,
onde se concentra, intenso,
algum truque olfativo de Kenzo.

Toco a nuca, onde o cabelo
gradualmente se transforma
na penugem fina
que te desce clara pelas costas;
na penugem que se eriça
quando explora minha língua
cada vão da tua espinha.

Olho pra cima
ao som de um gemido teu.
Por um segundo assim me distraio
(por cima do ombro direito
tu me olhas de soslaio).
Acolho nas mãos os teus seios,
de novo enceto a jornada
a um destino certo — tu —
em que me perco e perco meu norte

a caminho do teu sul.

28 de mai. de 2010

Tapeçaria

Entrelaçados,
tu, a trama,
eu, urdidura.
Quase um quadro
tendo a cama por moldura.

27 de mai. de 2010

Dicotomia

Tu me exibes cada curva da tua bunda
e te entregas, submetes-te de quatro
e, ao fitar-te assim, mais uma vez constato
em teu corpo a candura mais profunda.

Se, molhada, tu me imploras que te foda
e abres, louca para dar, as tuas pernas,
tenho em ti a minha amada doce e terna
e sei bem que mesmo então és pura, toda.

Quando como essa boceta que ofereces,
As palavras mais imundas que proferes
– e que raro ouvi dizer outras mulheres –
são mais santas que a mais casta e pia prece.

Tu me pedes que te chame de cachorra
e com isso o que te digo é que és amada:
ter-te-ei eternamente imaculada,
por mais que a tua boca cheire a porra.

Tu me juras, ao me dar, ser minha puta
e proclamas sem pudor ser eu teu dono.
Mas contemplo teu semblante, após, em sono
e te sei, dentre as mulheres, impoluta.

21 de abr. de 2010

Pontos de Vista

Não nos cabe julgar
Coisas ditas no leito.

Afinal, depende do lugar
O que é ou não vulgar.
O que, noutro contexto,
Seria falta de respeito;
O que é certo ou irregular;
O que, como, ou quando dar.

São, enfim, o dito e o feito
Apenas questões de conceito.

22 de mar. de 2010

Emoldurada

Viro pro lado e vejo
(filme adulto sem cortes,
revista de sacanagem),
em chiaroscuro e água-forte
à luz que vem da janela,
a obra-prima do vernissage.
Ainda sinto seu cheiro
doce e quente sobre a pele.
Ela dá uma de inocente
(nem desenho do Zéfiro,
nem bem óleo sobre tela),
espreguiça e faz que não sente
os meus olhos sobre a dela.

14 de fev. de 2010


(click na imagem para ver o "poema", se é que pode ser assim chamado)

8 de jan. de 2010

Marcas

Trago como um distintivo
estas linhas sobre as costas
meio retas, meio tortas,
gravadas na carne viva.

Se entrecruzam cicatrizes
sobre meu dorso marcado
de alto a baixo, lado a lado.
"Mas que absurdo!", dizes.

Explico o que aconteceu:
Mulheres têm longas unhas
E algumas usam as suas
como ferro de marcar: "É meu!"

Se me importo? Ora, não!
Reconheço, claro, a posse
e mesmo que assim não fosse,
são um selo de aprovação.

São testemunha silenciosa
de noites de pouco dormir
que deixa como souvenir
minha amada quando goza.

18 de set. de 2009

SM

Há momentos para a delicadeza das rendas.
Mas não hoje: corpete de couro, correntes.
É noite de algemas e vendas.
E ninguém tem nada com isso,
A não ser a gente.

Você se rende, se entrega,
Se dá ao luxo da confiança cega
No carrasco que elegeu.
Em pé ao pé do leito, o tal eleito, eu,
Te faço brinquedo e deleite.

Te quero dada de corpo e mente,
Te quero em bondage, amada, afoita,
Te quero em estro, lasciva, felina,
Te ouvir gemer meu nome entre dentes.
A cada meu toque de afago-açoite
E cada beijo quente da parafina.

Se quiser, depois a gente troca,
Você senhora, eu submisso.
Danem-se vizinhos e fofocas!
Ninguém tem nada com isso.
Há muitas e várias formas de gozo
E titio Sade ficaria orgulhoso.