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28 de abr. de 2011

Haikai tem kigo
e tem sempre 17
5-7-5

5 de abr. de 2011

Servil

Se quiser, conte comigo
para nunca estar sozinha.
Deixe aos meus cuidados
a faxina e a cozinha,
levar as crianças pra escola
e fazer supermercado
(se quiser vir junto, obrigado,
mas nem pense em levar as sacolas).
Pra pregar botão, trocar pneu,
pagar conta no banco, varrer a calçada,
saiba a quem recorrer: eu.
Posso até lavar sua roupa,
passar as peças mais delicadas.
E pras horas em que isso não baste,
deixo ao seu serviço e vontade
meu pau de dez polegadas.

10 de mar. de 2011

Conclusão

Lida a crítica de cabo a rabo,
devassada a teoria literária,
constato o inconteste fato:
um poema só é bom quando agrada
tanto a quem conhece o riscado
quanto a quem não manja nada.

3 de mar. de 2011

Convite

A quem possa interessar
foi criado aqui no bar
um puxadinho, um anexo
pra falar de prosa e verso.
Ficam, assim, convidados
os membros do BDE
e quem mais também quiser
pra saleta aqui ao lado.
Mas avisamos: cuidado!
Lá dizemos a verdade
(que, sabe-se, às vezes arde)
sem reservas, nem frescura:
não se dá apoio e alento
à mera mediocridade
nem à falta de talento.
E se as críticas são duras
não há nisso má vontade:
trata-se apenas, de fato
de não mais deixar barato
atentados contra a língua;
de não mais alçar o tosco
o comum, ou o mau gosto
às alturas de obra-prima
e deixar a arte à mingua.

Feito, assim, o alerta,
fica desde já aberta
esta nova filial
à vossa visitação.

Sem mais para o presente,
Firma, respeitosamente
(p.p. Allan Vidigal),
O Clube de Gamão.


(Este nasceu de uma brincadeira na comunidade orkutiana Bar do Escritor)

22 de fev. de 2011

Cautela

Atentai ao que vos digo,
escutai, varões, o conto,
triste sina de um amigo
que, de um golpe, viu-se roto.
Não faz mais xixi de pé:
do seu membro outrora altivo
não sobrou senão um toco.
Dai-vos conta deste aviso,
não façais ouvidos moucos –
não useis o fecho éclair
se criais o bicho solto.

26 de jan. de 2011

Para Ter teu Coração

Que trabalho tu me deste...
se eu pudesse, te diria
dessa angústia, da tensão.
Quem me dera tu soubesses:
tantas noites mal dormidas
para ter teu coração.

Quantos planos malfadados,
quantos erros, quantos medos,
quantas vezes pensei: “Não”.
Mas segui, era meu fardo
te fazer abrir o peito
e assim ter teu coração.

Afinal, um belo dia,
me valeu todo esse esforço
e eu o tive em minhas mãos.
Sobre a pia da cozinha,
temperado com sal grosso,
como é bom teu coração!

2 de dez. de 2010

Da Temática

Desde que a gente é gente,
desde que o mundo é mundo,
só tem importância um tema,
um só assunto interessa.
O resto? Ora, o resto!
São coisas que a gente inventa
pra ajudar a passar o tempo em que não dá pra fazer sexo.

5 de nov. de 2010

Cúpido

Cúpido, peço e não mo recusas:
entre as curvas
me revelas e descubro
teu tesouro mais oculto.

Cubro-te: atinges o cume
e sucumbes em decúbito.

31 de out. de 2010

Gás

Talvez um poema lhe saia do peito,
Talvez venha a nós, outrossim, do intestino.
Pra mim, o poema biscoito mais fino
É o tal que se faz, não aquele que é feito.

E assim lhe respondo, contesto-lhe o pleito:
Não pode um poema, lhe indago, menino,
Fazer-se por si, prescindir raciocínio,
Nascer como espirro, um arroto ou um peido?

Não pode um poema fazer-se, de fato?
Vir não da cabeça, mas sim das entranhas?
Fazer-se espontâneo, sem truques nem manhas,
Qual faz-se uma bufa, ou um traque, ou um flato?

Nos vir por acaso, acidente, de chofre,
Malgrado o aroma de alho ou de enxofre?

16 de ago. de 2010

Trouxa

Quem mandou, também, paspalho,
resolver largar o cigarro
logo agora que ela foi viajar a trabalho?
Agora fica aí,
mal-humorado pra caralho,
dormindo toda a tarde,
passando a noite acordado,
sem saber se essa azia
é por causa da saudade
e da casa vazia,
ou se é só ansiedade
e hiponicotinemia.

20 de jul. de 2010

A um Estudante Desencantado

[este é um dos textos com que participei do 5º Desafio dos Escritores. O tom cômico foi a maneira que encontrei para lidar com o tema — aconselhar um estudante de economia — sem descambar para o recurso óbvio do construtivo e edificante]

Recebi com tristeza, prezado pupilo,
teu bilhete dizendo que tu desististe,
que trancaste a matrícula, e isso, e aquilo;
que não mais queres ser seguidor de Adam Smith

No papel de teu mestre, te quero tranquilo:
te retrata e prossegue. Vai em frente e insiste!
Não te deixes magoar por apenas ter lido
essa vil referência à matéria por "triste".

Sim, Carlyle a chamou "ciência triste", de fato,
"deprimente", ou "sombria", por outros relatos,
mas o fez ao falar das ideias de Malthus,
que era, bem sabes tu, pessimista e um chato.

Quem cunhou esse epíteto pouco sabia
que não há absolutos em economia.

10 de jul. de 2010

Ímpio

Como vim parar aqui?
Não sei ao certo, confesso.
Já tentei me recordar,
mas sem nunca ter sucesso.

Deve ter sido acidente,
ou então morte matada,
vitimado em latrocínio
num farol, de madrugada.

Afinal, meu hemograma
mais recente foi perfeito
e o doutor me disse são
depois de auscultar meu peito.

O que quer que tenha sido,
disse à vida "até a vista";
faleci, ou fui a óbito,
Como dizem os legistas.

Qual não foi minha surpresa
- eu, que fora sempre incréu -
ao me ver ali, de cara
pro portão que dá pro Céu.

E pensei com meus botões:
"Poxa vida, quem diria
que um ateu tal como eu
estaria aqui um dia?"

E foi justo nessa hora
Que acenou pra mim um anjo
Tomei isso por convite,
Sem demora fui entrando.

"Alto lá!" gritou o tal.
"Tá pensando que é assim?
Aqui temos um processo,
só se entra com check-in."

Maldizendo os burocratas,
lá fui eu tentar a sorte.
E avisei de pronto o gajo:
"Olha, tou sem passaporte."

E o anjão me disse, "Filho,
Isso, aqui, não é problema
o processo é muito simples,
venha cá e nada tema."

Me estendeu um papelzinho
E me deu uma caneta:
"Bota aqui sua rubrica
pra dizer 'tchau' ao capeta."

Foi então que vi ao longe,
Passeando de mãos dadas,
Entretidos em conversa,
Mussolini e Torquemada

Perguntei, então, ao anjo,
"Me responda, ó, potestade:
por que estão aqui os dois
em vez de fritar no Hades?"

Me subiu, então, o sangue
e me deu siricotico.
Rasguei o contrato ao meio
e bradei, "Aqui não fico!"

"Palhaçada!", prossegui.
"Olha aqui, seu querubim,
uma vizinhança dessas
com certeza não é pra mim".

Veio então a trovoada,
pretejou o céu anil,
o anjo deu uma gargalhada
e o chão do céu se abriu.

"Vai-te embora!" ele gritou,
me empurrando, a altos brados.
Ainda pude responder,
"Pois vou, sim, e é de bom grado!"

Refleti durante a queda,
"Que se dane essa doutrina.
Me recuso a ser comparsa
disso que ali se ensina."

Recebeu-me aqui no inferno
um capeta sorridente.
"Que demora", disse ele.
"Vem aqui falar com a gente!"

Resignado à danação,
Outra vez me vi surpreso:
encontrei nas profundezas
meus heróis da vida em peso.

Não que aqui seja perfeito
(a bagunça é muito grande),
mas divido a eternidade
com Platão, Sidarta e Gandhi.

10 de jun. de 2010

Reciclagem

Se um átomo de carbono
duma molécula de amido
da farinha — cadáver do trigo —
do bocado de pão que mastigo
pode bem já ter pertencido
ao corpo do meu inimigo,
é claro que a vida faz sentido.

25 de mai. de 2010

Dúvida

Trabalhando num texto,
fiquei matutando:
"dátilo" é dátilo
e "anapesto" é anapesto.
Mas não entendo o porquê
de "troqueu" ser iambo
e "iambo", troqueu.

14 de abr. de 2010

Primeira estrelinha que eu vejo....

Quem sabe alguém não me escute:
Quisera houvesse em Brasília
Um prédio como a Bastilha
(allez, enfants de la pute).

5 de abr. de 2010

Anatomia

Há os que escrevem coisas belas,
Construtivas
E morais.
Há quem escreva o que há no peito
E nas almas
imortais.
Coração, pelo que sei,
É uma bomba,
Nada mais.
Quanto à alma, convenhamos,
Se a tenho,
Desconheço.
Me perdoem os sensíveis,
E os bonzinhos
E os carolas,
Mas escrevo com a cabeça
E, às vezes,
Com as bolas.

1 de abr. de 2010

Ambicanhoto

Não dá pra levar muito a sério
quem trave no crânio combate
incessante entre os dois hemisférios.
Seja lá guerra fria ou détente,
Ou quiçá Apocalypse Now.
Acabo ficando eu refém
Da guerra pelo córtex frontal.
Dançando com dois pés esquerdos,
Nas mãos dos meus lobos, brinquedo.
E se quero correr para um lado
Acabo correndo pro errado.
Não podia, enfim, eu dar certo:
Sou canhoto num corpo de destro.

18 de mar. de 2010

Autoschadenfreude

Pingou pimenta
nos próprios olhos.
Foi ao delírio.

4 de mar. de 2010

Confissão

Esquece o cabelão, as tatuagens,
A cara de mau e a roupa preta.
Esquece, sério, é só personagem:
No fundo eu sou um tremendo careta.

14 de fev. de 2010


(click na imagem para ver o "poema", se é que pode ser assim chamado)