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13 de mar. de 2011

Culto

Adora-me, genuflexa,
sê hetaera e ninfa,
venera em mim Príapo e Pã.
Recebe entre as mãos
o ícone e signo da tua devoção.
Acolhe sobre a língua
o sacramento, a eucaristia
que te dá teu deus pagão.

21 de out. de 2009

Anacronismo

Acreditem ou não, há quem diga
que hoje vivem aqui velhos mitos
degredados da Hélade antiga
e dos bosques da Arcádia banidos.

Que uma dríade ainda está viva,
escondida no caos paulistano,
disfarçando-se de executiva,
por detrás de orçamentos e planos.

E que um fauno usa roupas de grife,
camuflando do jeito que pode
sua cauda, seus pelos, seus chifres,
os seus cascos e patas de bode.

A metrópole é um tipo de Hades,
é um mundo distante do seu,
onde matam um no outro as saudades
do que tinham à beira do Egeu.

19 de jul. de 2009

O outro

Duvide, minha amiga, de quem diga que ando desgovernado, que vago pela madrugada paulistana com garotas de fama aquém de ilibada. Haverá um engano decerto, que de pronto nego. Quem apronta dessas, garanto, não sou eu, quase santo. É o meu alter-ego.

Onde já se viu tão vil injúria? Alguém dessa estatura, da linhagem mais pura, habituado a jantares de doze talheres, frequentar esses bares com essas mulheres? Pare. Ouça. Ainda paira, moça, o último eco do silvo da flauta. Não são minhas as faltas. E, rápido, conto: "é o sátiro". E pronto.

Acha possível que alguém como eu, um lorde, assim se porte? Perdido, sem norte? Em vez de vernissages, concertos, museus e quartetos de cordas, passar a noite nas rodas dos guetos, nos seus becos? Bobagem. Olha para trás, para baixo; vê as pegadas? Eu calço sapatos de cromo e, às vezes, coturnos. E esses rastros são dos cascos desse animal noturno, o fauno. Juro.

Isso não existe. Percebe? Um membro da elite não se envolve com a plebe. Nem se permite ser visto em qualquer inferninho de mau gosto.Isso é de mim, afinal, o oposto. Preste atenção, é importante. Isso só acontece quando me distraio por um instante e Pã aproveita e assume o volante.

16 de mai. de 2009

Vingança

Ingrato. É isso que ele é. Só me fode, sempre que tem uma chance. Mesmo depois daquele dia em que convenci a namoradinha dele a não se matar e pensei, “bom, agora ele me dá uma folga”, o cara continua tirando comigo.

Mas agora chega. Vai ver só uma coisa da próxima vez que aparecer com aquele arquinho ridículo. Quero ver como se vira contra um composto Golden Eagle de 80 libras, flecha de carbono e ponta de caça turkeyspur de cromo-molibdênio-vanádio. Tenho treinado. Com scope e gatilho faço agrupamentos de uma polegada a cem metros.

Da próxima vez que o puto aparecer, prego ele na parede pelas asinhas.

5 de mar. de 2009

Satírico

Mentiu Plutarco, ou mentiu o tal Thamus.
Pode ter sido um erro inocente,
mas está vivo, e bem, e contente.
Não passou tudo de um simples engano.

Abandonou a Arcádia, é verdade,
e já nem pensa em Syrinx ou Echo.
Mas aprendeu a beber em boteco
e gosta mais de viver na cidade.

O fato é: o rapaz não morreu.
Mora em São Paulo, num loft bacana,
e já nem é mais tão grande sacana.
O Grande Pã, minha cara, sou eu.