Às vezes vejo por aí um fantasma que nem fantasma parece. Só de olhar pra cara do fulano a gente vê que é feliz, confiante na vida, ou, pelo menos, no sucedâneo de vida de que gozam os fantasmas. Que olha para a frente e vê um futuro definido e tranquilo. Que sua vida está resolvida e bem embalada. Que nem desconfia que esse embalo vai servir só para aumentar o tamanho do tombo. Fica andando por aí, como se vivo fosse, pelo apartamento claro e amplo que habita. De vez em quando fico olhando enquanto ele faz jantar para dois, blissfully unaware de que a vida não é como ele pensa.
Quando falam em assombração, a gente pensa em lugares antigos, escuros, lúgubres. Fantasmagóricos, enfim. Castelos ingleses. Abadias normandas. Velhas senzalas abandonadas. Não é bem assim: o mesmo apartamento modernoso que aquele fantasma assombra, que tem por fachada uma enorme janela e tanta iluminação natural que chega a incomodar, é morada, também, de outro espectro, esse de aspecto mais típico. Aquelas coisas que a gente espera de fantasma: pálido, olheiras, 60 quilos esquálidos distribuídos por seu metro-e-oitenta. Esse não assobia. Nem faz jantar. Quando muito, olha com pena, ou raiva, ou pena e raiva para o outro fantasma.
Eu olho para os dois e xingo as páginas amarelas porque não encontro anúncio de exorcista que ajude a gente a se livrar de fantasma de si mesmo.
4 de jun. de 2009
27 de mai. de 2009
O Anti-Clown
É até compreensível que ele se tivesse tornado quem foi. Terceiro e mais novo rebento de pai e mãe que vinham, ambos, de longas e honradas linhagens de palhaços de circo, sentiu-se sempre por eles preterido em favor dos irmãos mais velhos, Hilário e Allegra.
Tristão foi filho temporão, nascido quando seus pais já não pensavam em acrescentar à pequena e perfeitamente equilibrada família de dois adultos e duas crianças, dois homens e duas mulheres. A gravidez inesperada impedira a apresentação de sua mãe no Festival de Milão, justamente no ano em que era considerada franca favorita. Talvez por isso tenha sido nosso protagonista registrado com esse nome, embora o pai sempre jurasse que não.
Mas, tenha ou não sido intencional, é pouco provável que o infeliz apelido possa explicar o caminho que escolheu trilhar Tristão. O fato é que sempre apresentara uma tendência para o dramático e o trágico. Dos três irmãos, fora o único a chorar após o parto sem necessidade de intervenção do obstetra. Manifestara, desde a mais tenra idade, violenta alergia ao pó-de-arroz e à tinta facial. Quando, com a família à paisana numa lanchonete do interior, uma garçonete bem intencionada lhe perguntara o que queria ser quando crescesse, respondeu: “Palhaço” e em seguida teve um acesso nervoso e começou a rir e chorar ao mesmo tempo.
Era um super-vilão, como esses de histórias em quadrinhos. Está bem, que seja: não era exatamente um super-vilão. Não fazia o mundo tremer de medo com sua gargalhada maligna. Nem tinha super-heróis contra quem se bater. Sequer super-poderes tinha. Enfim, sejamos objetivos: Tristão gostava de se imaginar um super-vilão. Fora do horário de trabalho, despia-se da fantasia e vagava incógnito pela cidade em que estivesse, vestido como uma pessoa qualquer, praticando pequenas maldades.
Misturava pimenta no açúcar do algodão-doce e anti-ácido no sal das pipocas, amassava botões de flores antes que pudessem desabrochar e furava os pneus do carrinho de sorvete. Só nessas horas é que surgia entre seus lábios um sorriso verdadeiro.
Tristão foi filho temporão, nascido quando seus pais já não pensavam em acrescentar à pequena e perfeitamente equilibrada família de dois adultos e duas crianças, dois homens e duas mulheres. A gravidez inesperada impedira a apresentação de sua mãe no Festival de Milão, justamente no ano em que era considerada franca favorita. Talvez por isso tenha sido nosso protagonista registrado com esse nome, embora o pai sempre jurasse que não.
Mas, tenha ou não sido intencional, é pouco provável que o infeliz apelido possa explicar o caminho que escolheu trilhar Tristão. O fato é que sempre apresentara uma tendência para o dramático e o trágico. Dos três irmãos, fora o único a chorar após o parto sem necessidade de intervenção do obstetra. Manifestara, desde a mais tenra idade, violenta alergia ao pó-de-arroz e à tinta facial. Quando, com a família à paisana numa lanchonete do interior, uma garçonete bem intencionada lhe perguntara o que queria ser quando crescesse, respondeu: “Palhaço” e em seguida teve um acesso nervoso e começou a rir e chorar ao mesmo tempo.
Era um super-vilão, como esses de histórias em quadrinhos. Está bem, que seja: não era exatamente um super-vilão. Não fazia o mundo tremer de medo com sua gargalhada maligna. Nem tinha super-heróis contra quem se bater. Sequer super-poderes tinha. Enfim, sejamos objetivos: Tristão gostava de se imaginar um super-vilão. Fora do horário de trabalho, despia-se da fantasia e vagava incógnito pela cidade em que estivesse, vestido como uma pessoa qualquer, praticando pequenas maldades.
Misturava pimenta no açúcar do algodão-doce e anti-ácido no sal das pipocas, amassava botões de flores antes que pudessem desabrochar e furava os pneus do carrinho de sorvete. Só nessas horas é que surgia entre seus lábios um sorriso verdadeiro.
26 de mai. de 2009
Lamento de um foodie fodido
I
Ah, quem dera estar em terras de França e, num porão qualquer de Isigny sur Mer, abrir um verdadeiro camembert, em vez dessa porcaria pasteurizada a que a vigilância sanitária nos obriga. E que se danem as lombrigas.
II
Caviar, quem sabe. Sevruga com blinis. Ou, já que estamos no plano da imaginação, um beluga, até? Mas não o de Taubaté. Esse não.
III
Imagine:
Charcutarias finas de Viena. Uma baguette saindo do forno. Uma taça de rustico frutado.
Só mesmo com muito esforço pra esquecer o retrogosto.
(Fanta uva e pão com ovo)
IV
Um dia alguém falou do aspecto fálico do almofariz, da natureza quase onanista de seu manipular. Perdi para sempre o gosto pelo pesto. E cortei relações com aquela vaca freudiana.
V
Hoje, por preguiça de cozinhar, jantei uma sopa Campbell’s de ervilha. Agora, vejam só que maravilha, estou me sentindo super pop-art.
VI
Um foodie qualquer worth his salt
aceitaria de bom grado
um espresso Kopi Luwac
e macarrons da Ladurée.
Mas às vezes basta café
(de coador) e uma caixa
de caramelos de Avaré.
Que Deus me livre de Evian e S. Pellegrino, essas marcas de água pequeno-burguesas. Eu quero é uma taça de Fiuggi ou de Volcanic, uma Sole, ou Siana, ou Lauquen, ou Le Bleu, pra beber euros por gole e sentir na língua algo diferente do gosto ácido-amargo de água de torneira guardada na moringa.
Ah, quem dera estar em terras de França e, num porão qualquer de Isigny sur Mer, abrir um verdadeiro camembert, em vez dessa porcaria pasteurizada a que a vigilância sanitária nos obriga. E que se danem as lombrigas.
II
Caviar, quem sabe. Sevruga com blinis. Ou, já que estamos no plano da imaginação, um beluga, até? Mas não o de Taubaté. Esse não.
III
Imagine:
Charcutarias finas de Viena. Uma baguette saindo do forno. Uma taça de rustico frutado.
Só mesmo com muito esforço pra esquecer o retrogosto.
(Fanta uva e pão com ovo)
IV
Um dia alguém falou do aspecto fálico do almofariz, da natureza quase onanista de seu manipular. Perdi para sempre o gosto pelo pesto. E cortei relações com aquela vaca freudiana.
V
Hoje, por preguiça de cozinhar, jantei uma sopa Campbell’s de ervilha. Agora, vejam só que maravilha, estou me sentindo super pop-art.
VI
Um foodie qualquer worth his salt
aceitaria de bom grado
um espresso Kopi Luwac
e macarrons da Ladurée.
Mas às vezes basta café
(de coador) e uma caixa
de caramelos de Avaré.
VII
21 de mai. de 2009
Fita de Möbius
Quando se conheceram, ficaram os dois meio abestalhados. Num sábado à noite, num bar cheio. À meia noite estourou o transformador do quarteirão e sentaram-se juntos e conversaram tanto e tão bem que nem perceberam quando a luz voltou. Era dia claro quando saíram de lá, sob insistentes pedidos do gerente.
Tiveram um relacionamento estranho, meio platônico. Email, messenger. Encontravam-se às vezes no fim da tarde para tomar vinho em algum bar onde ninguém os conhecesse — a situação não era, digamos, propícia. Depois de algum tempo ela pôs um ponto final naquela história.
###
Voltaram a se encontrar uns seis meses depois, agora um pouco menos platônicos. Mas, de novo, havia dificuldades, ainda que outras. E foi ele quem, dessa vez, achou motivo para por um ponto final.
###
Foram sete anos entre o segundo ponto final e o segundo reencontro. Que nada teve de platônico. E foram dois meses entre o segundo reencontro e o terceiro ponto final.
###
Os dois ao mesmo tempo querem e temem que os pontos finais tenham virado reticências.
Tiveram um relacionamento estranho, meio platônico. Email, messenger. Encontravam-se às vezes no fim da tarde para tomar vinho em algum bar onde ninguém os conhecesse — a situação não era, digamos, propícia. Depois de algum tempo ela pôs um ponto final naquela história.
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Voltaram a se encontrar uns seis meses depois, agora um pouco menos platônicos. Mas, de novo, havia dificuldades, ainda que outras. E foi ele quem, dessa vez, achou motivo para por um ponto final.
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Foram sete anos entre o segundo ponto final e o segundo reencontro. Que nada teve de platônico. E foram dois meses entre o segundo reencontro e o terceiro ponto final.
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Os dois ao mesmo tempo querem e temem que os pontos finais tenham virado reticências.
16 de mai. de 2009
Vingança
Ingrato. É isso que ele é. Só me fode, sempre que tem uma chance. Mesmo depois daquele dia em que convenci a namoradinha dele a não se matar e pensei, “bom, agora ele me dá uma folga”, o cara continua tirando comigo.
Mas agora chega. Vai ver só uma coisa da próxima vez que aparecer com aquele arquinho ridículo. Quero ver como se vira contra um composto Golden Eagle de 80 libras, flecha de carbono e ponta de caça turkeyspur de cromo-molibdênio-vanádio. Tenho treinado. Com scope e gatilho faço agrupamentos de uma polegada a cem metros.
Da próxima vez que o puto aparecer, prego ele na parede pelas asinhas.
Mas agora chega. Vai ver só uma coisa da próxima vez que aparecer com aquele arquinho ridículo. Quero ver como se vira contra um composto Golden Eagle de 80 libras, flecha de carbono e ponta de caça turkeyspur de cromo-molibdênio-vanádio. Tenho treinado. Com scope e gatilho faço agrupamentos de uma polegada a cem metros.
Da próxima vez que o puto aparecer, prego ele na parede pelas asinhas.
7 de mai. de 2009
Cantiguinha de auto-escárnio
O predestinado de um lado
e, do outro, ela e a vela.
Entre cristais e aprendizes
(entre Geraldos e Lizes),
como esperar do coitado
que honre suas raízes?
Ovelha negra da família,
vergonha da Vidigalzada:
não sabe fazer poesia.
Quando tenta, só sai piada.
e, do outro, ela e a vela.
Entre cristais e aprendizes
(entre Geraldos e Lizes),
como esperar do coitado
que honre suas raízes?
Ovelha negra da família,
vergonha da Vidigalzada:
não sabe fazer poesia.
Quando tenta, só sai piada.
28 de abr. de 2009
Vício
Saio do escritório tarde. Prazo para o dia seguinte, maior correria. Exceção de incompetência. Coisa chata. Saio lá pelas três da manhã. A portaria da Líbero Badaró fecha às onze da noite e depois disso, só pelo Vale do Anhangabaú. Que é terra de ninguém depois que escurece. Os quinhentos metros até a alça da 23 e o ponto de táxi são sempre uma aventura quando saio tarde assim.
Cansado. Distraído. Tentando lembrar se esqueci de alguma coisa na petição. Acendo um cigarro. Gitanes sem filtro. Coisa reservada para dias de estresse especial.
“Dá um cigarro, tio?”
Paro. Olho. Enfio a mão no bolso do paletó e peço o maço; tiro um e dou para o cara. Penso com meus botões que ele não faz a menor idéia de quanto custa o cigarro que ele vai fumar. Vai acender e tragar como se fosse um roliúdi qualquer. Não que tenha qualquer importância.
“Tem fogo?”
Guardo o maço de cigarros num bolso e, com a outra mão, pego o isqueiro.
“Dá a carteira!”
Cansado. Distraído.
“O quê?”
“Dá a carteira, porra! Relógio, celular! Vai, filhadaputa!”
Com o canto do olho percebo algo brilhante na mão do figura. Faca. Olho meio fascinado para ela, que parece ocupar todo o meu campo de visão. Fodeu.
Ouço um grunhido molhado e desvio os olhos da lâmina por um instante. Meu interlocutor me encara, surpreso e exoftálmico. Surpreso eu, também, ao ver minha mão livre agarrada à sua garganta. Ouço o som da faca caindo no mosaico português, um som distante. Minha atenção se concentra, toda, na visão — daquela boca contorcida — e no tato: na pele quente, escorregadia, sebosa; na carne que cede, relutante, à pressão dos dedos; na sensação, afinal, das pontas do polegar e do indicador quase se tocando atrás da traquéia, separadas apenas por uma dupla camada de derme.
Minha mão tem vontade própria e continua a se fechar, comprimindo as vias aéreas do coitado e forçando a língua para fora. Em câmera lenta, vejo minha mão trazer o rosto em pânico para perto do meu. Aos poucos meus sentidos abrem espaço para o olfato e percebo seu hálito podre. Meus olhos dentro dos seus, que, estranhamente, parecem pedir ajuda. Ajuda? A essas alturas? Não tem mais jeito, meu caro: o hióide e a cricóide já foram pro saco. Eu senti quando eles partiram. Não tem mais jeito.
Praticamente me derramo naqueles olhos de sampaku. Entre o horror e o fascínio, vejo as pupilas se dilatarem até comerem quase toda a íris. Minha mão está praticamente fechada. Nossos narizes quase se tocam. Quando minha mão finalmente começa a se soltar, um último suspiro escapa daquela boca morta: agudo, discreto, rouco, como uma mulher que goza baixinho. Minha perdição.
_________
Faz anos que às vezes me pego fazendo hora no escritório, inventando motivo para ficar até tarde e ter que sair de madrugada pelo Vale. Às vezes tentam me assaltar.
Cansado. Distraído. Tentando lembrar se esqueci de alguma coisa na petição. Acendo um cigarro. Gitanes sem filtro. Coisa reservada para dias de estresse especial.
“Dá um cigarro, tio?”
Paro. Olho. Enfio a mão no bolso do paletó e peço o maço; tiro um e dou para o cara. Penso com meus botões que ele não faz a menor idéia de quanto custa o cigarro que ele vai fumar. Vai acender e tragar como se fosse um roliúdi qualquer. Não que tenha qualquer importância.
“Tem fogo?”
Guardo o maço de cigarros num bolso e, com a outra mão, pego o isqueiro.
“Dá a carteira!”
Cansado. Distraído.
“O quê?”
“Dá a carteira, porra! Relógio, celular! Vai, filhadaputa!”
Com o canto do olho percebo algo brilhante na mão do figura. Faca. Olho meio fascinado para ela, que parece ocupar todo o meu campo de visão. Fodeu.
Ouço um grunhido molhado e desvio os olhos da lâmina por um instante. Meu interlocutor me encara, surpreso e exoftálmico. Surpreso eu, também, ao ver minha mão livre agarrada à sua garganta. Ouço o som da faca caindo no mosaico português, um som distante. Minha atenção se concentra, toda, na visão — daquela boca contorcida — e no tato: na pele quente, escorregadia, sebosa; na carne que cede, relutante, à pressão dos dedos; na sensação, afinal, das pontas do polegar e do indicador quase se tocando atrás da traquéia, separadas apenas por uma dupla camada de derme.
Minha mão tem vontade própria e continua a se fechar, comprimindo as vias aéreas do coitado e forçando a língua para fora. Em câmera lenta, vejo minha mão trazer o rosto em pânico para perto do meu. Aos poucos meus sentidos abrem espaço para o olfato e percebo seu hálito podre. Meus olhos dentro dos seus, que, estranhamente, parecem pedir ajuda. Ajuda? A essas alturas? Não tem mais jeito, meu caro: o hióide e a cricóide já foram pro saco. Eu senti quando eles partiram. Não tem mais jeito.
Praticamente me derramo naqueles olhos de sampaku. Entre o horror e o fascínio, vejo as pupilas se dilatarem até comerem quase toda a íris. Minha mão está praticamente fechada. Nossos narizes quase se tocam. Quando minha mão finalmente começa a se soltar, um último suspiro escapa daquela boca morta: agudo, discreto, rouco, como uma mulher que goza baixinho. Minha perdição.
_________
Faz anos que às vezes me pego fazendo hora no escritório, inventando motivo para ficar até tarde e ter que sair de madrugada pelo Vale. Às vezes tentam me assaltar.
27 de abr. de 2009
Bem-te-vi
"Vou chegar tarde", ela disse. "Tem um happy hour do trabalho."
E chegou mesmo. Às seis da manhã. Ele passou a noite junto da janela, olhando para fora, esperando. Telefone na mão. Ligou tantas vezes que não fazia idéia de quantas. Caixa postal. Lá pelas quatro e meia, começou a cantar um bem-te-vi que devia estar no fuso horário errado. Cantou por meia hora e ficou quieto.
Depois desse dia ela passou a chegar tarde com frequência. Quase sempre, aliás. E ele, trouxa, ficava junto da janela, olhando para fora e esperando. Já não se dava ao trabalho de telefonar. Ela não iria atender. E às quatro e meia de cada madrugada cantava o tal bem-te-vi, que aos poucos virou seu parceiro de vigília. Mania cretina de antropomorfizar as coisas. Tentava imaginar se o bicho queria dizer algo como "cara, vai dormir, desencana", ou "espera mais um pouco, ela já chega". Fosse o que fosse, o bem-te-vi era a única companhia que tinha naquelas horas de sofrimento auto-imposto.
O bem-te-vi virou seu único amigo.
Uma noite, lá pelas quatro e pouco, ele se assustou com a campainha do telefone. Era ela. Não iria voltar. A não ser para pegar suas coisas. Ele desligou o telefone e, logo em seguida, o bem-te-vi começou a cantar. Teve um acesso súbito de ódio. Como assim, cantar? Como assim? "Não percebeu, passarinho filho da puta, que agora acabou?" Se tivesse uma doze por perto, teria transformado o bicho em paçoca. Mas não tinha e o bem-te-vi continuou a cantar como se tudo aquilo não tivesse a menor importância.
(O bem-te-vi sabia das coisas.)
E chegou mesmo. Às seis da manhã. Ele passou a noite junto da janela, olhando para fora, esperando. Telefone na mão. Ligou tantas vezes que não fazia idéia de quantas. Caixa postal. Lá pelas quatro e meia, começou a cantar um bem-te-vi que devia estar no fuso horário errado. Cantou por meia hora e ficou quieto.
Depois desse dia ela passou a chegar tarde com frequência. Quase sempre, aliás. E ele, trouxa, ficava junto da janela, olhando para fora e esperando. Já não se dava ao trabalho de telefonar. Ela não iria atender. E às quatro e meia de cada madrugada cantava o tal bem-te-vi, que aos poucos virou seu parceiro de vigília. Mania cretina de antropomorfizar as coisas. Tentava imaginar se o bicho queria dizer algo como "cara, vai dormir, desencana", ou "espera mais um pouco, ela já chega". Fosse o que fosse, o bem-te-vi era a única companhia que tinha naquelas horas de sofrimento auto-imposto.
O bem-te-vi virou seu único amigo.
Uma noite, lá pelas quatro e pouco, ele se assustou com a campainha do telefone. Era ela. Não iria voltar. A não ser para pegar suas coisas. Ele desligou o telefone e, logo em seguida, o bem-te-vi começou a cantar. Teve um acesso súbito de ódio. Como assim, cantar? Como assim? "Não percebeu, passarinho filho da puta, que agora acabou?" Se tivesse uma doze por perto, teria transformado o bicho em paçoca. Mas não tinha e o bem-te-vi continuou a cantar como se tudo aquilo não tivesse a menor importância.
(O bem-te-vi sabia das coisas.)
24 de abr. de 2009
Conversinha
"Eu não quero ir. Quero ficar aqui em casa."
É você quem sabe.
"Então tá."
Mas você sabe o que vai acontecer. Não sabe?
"Não vai acontecer nada. Dessa vez, não."
Não diga que eu não avisei.
"Para!"
Então vamos.
"Não, por favor. Eu não quero. Não gosto de ir lá fora."
Mas eu quero. Gosto. Preciso.
"Não."
Tá.
"Para, por favor. Para. Para..."
Você sabe que só vou parar quando sairmos.
"Não!"
Oquêi...
"Para, eu não aguento mais..."
...
"Para... por favor... eu não consigo mais fazer isso."
...
"Tá bom. Vamos."
Você não está esquecendo nada?
"Ai... não... vamos só dar uma volta desta vez? Só desta vez?"
Não é assim que as coisas funcionam. Você sabe. Só tem um jeito de você se ver livre de mim.
"Mas você sempre volta."
Tá. Só tem um jeito de você se ver livre de mim por um tempo. Pega a faca.
"Não, não quero!"
PEGA A FACA! PEGAFACA! PEGAPEGAPEGAPEGAFACA!
"Para, pelo amor de deus... eu pego... mas para de gritar, senão as pessoas vão ouvir tudo."
Você sabe muito bem que não vão.
"Mas se você não parar, eu vou gritar também. E as pessoas vão ouvir."
Então pega a faca e fica quietinha.
"Tá. Tô indo."
______________________________________
O QUE VOCÊ TÁ FAZENDO? PARA! PARA!
"NÃO! CHEGA! ACABOU! NÃO VOU MAIS FAZER O QUE VOCÊ MANDA!"
PARA DE GRITAR AS PESSOAS VÃO OUVIR...
"NÃO! NÃO VOU MAIS FAZER O QUE VOCÊ MANDA! E VOU GRITAR O QUANTO BEM ENTENDER!"
Se acalma, por favor... vamos conversar...
"NÃO, CHEGA DE CONVERSAR, VOCÊ SEMPRE ME ENGANA! CHEGA!"
Não faz isso... não faz isso não... faz..."
"Isso."
______________________________________
O vizinho do lado chamou o zelador, que chamou o proprietário, que tinha a chave da kitchenette. Entraram todos e deram de cara com dona Ziquinha caída no centro daquilo que parecia um mar de seu próprio sangue. Chamaram a polícia. Um investigador vomitou ao abrir o freezer em busca de gelo e encontrar dúzias de orelhas, cada uma em seu envelope Zip-Loc.
É você quem sabe.
"Então tá."
Mas você sabe o que vai acontecer. Não sabe?
"Não vai acontecer nada. Dessa vez, não."
Não diga que eu não avisei.
"Para!"
Então vamos.
"Não, por favor. Eu não quero. Não gosto de ir lá fora."
Mas eu quero. Gosto. Preciso.
"Não."
Tá.
"Para, por favor. Para. Para..."
Você sabe que só vou parar quando sairmos.
"Não!"
Oquêi...
"Para, eu não aguento mais..."
...
"Para... por favor... eu não consigo mais fazer isso."
...
"Tá bom. Vamos."
Você não está esquecendo nada?
"Ai... não... vamos só dar uma volta desta vez? Só desta vez?"
Não é assim que as coisas funcionam. Você sabe. Só tem um jeito de você se ver livre de mim.
"Mas você sempre volta."
Tá. Só tem um jeito de você se ver livre de mim por um tempo. Pega a faca.
"Não, não quero!"
PEGA A FACA! PEGAFACA! PEGAPEGAPEGAPEGAFACA!
"Para, pelo amor de deus... eu pego... mas para de gritar, senão as pessoas vão ouvir tudo."
Você sabe muito bem que não vão.
"Mas se você não parar, eu vou gritar também. E as pessoas vão ouvir."
Então pega a faca e fica quietinha.
"Tá. Tô indo."
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O QUE VOCÊ TÁ FAZENDO? PARA! PARA!
"NÃO! CHEGA! ACABOU! NÃO VOU MAIS FAZER O QUE VOCÊ MANDA!"
PARA DE GRITAR AS PESSOAS VÃO OUVIR...
"NÃO! NÃO VOU MAIS FAZER O QUE VOCÊ MANDA! E VOU GRITAR O QUANTO BEM ENTENDER!"
Se acalma, por favor... vamos conversar...
"NÃO, CHEGA DE CONVERSAR, VOCÊ SEMPRE ME ENGANA! CHEGA!"
Não faz isso... não faz isso não... faz..."
"Isso."
______________________________________
O vizinho do lado chamou o zelador, que chamou o proprietário, que tinha a chave da kitchenette. Entraram todos e deram de cara com dona Ziquinha caída no centro daquilo que parecia um mar de seu próprio sangue. Chamaram a polícia. Um investigador vomitou ao abrir o freezer em busca de gelo e encontrar dúzias de orelhas, cada uma em seu envelope Zip-Loc.
7 de abr. de 2009
Paquera
Ela entra no bar, vai até uma mesa onde alguém comemora seu aniversário, cumprimenta as pessoas, olha em volta. Bonita. Muito bonita. Olhos verdes, cabelo preto. Sempre uma combinação perigosa. Vem em minha direção.
"Oi, esta cadeira tá ocupada?"
"Não. Pode pegar."
Mas não, não faltava um lugar na mesa dela. Puxa a cadeira e senta. Vira para o barman.
"Ô! Me dá uma Stella."
Assim, no imperativo. Sem nem uma interrogação no fim pra parecer mais simpática. O cara do bar dá um sorriso cínico, pega a cerveja, abre, serve. Marca a comanda.
A essas alturas a banda começa a esquentar. Ótimo. É para isso que venho aqui. Sei o setlist deles de cor. Tocam neste bar uma vez por mês. A próxima música começa como uma versão groovada de Águas de Março, passeia por Smoke on the Water, volta pras Águas de Março e termina com o teclado brincando em torno do riff de Aqualung. Puta banda.
"Posso pegar um cigarro seu?"
Geralmente funciona, mas nem sempre. Normalmente, num bar de jazz desses mais caros, cabeludo de roupa preta e cara de poucos amigos não é abordado e consegue ouvir música em paz. Problema: até em bar de jazz às vezes aparece mulher que gosta de cabeludo de roupa preta. Especialmente se tiver cara de poucos amigos.
"Pode, claro."
Desde que você fique quieta e me deixe ouvir a banda sossegado. Só que, claro, cometo um erro básico. Acendo o cigarro para ela. Bonita. Muito bonita. Olhos verdes, cabelo preto. Já disse.
"Valeu."
"Foi nada."
Agora fica quieta, sério. Já perdi metade da música.
"Você tá sozinho?"
"Tô. Sempre venho aqui quando tô a fim de ficar sozinho e ouvir música."
Nada sutil, mas costuma funcionar.
"Sua namorada não liga?"
Putz, garota... será que você não se toca?
"Tô solteiro."
"Ah, duvido!"
"É um direito seu."
Quem sabe agora eu consigo voltar a prestar atenção na banda.
"É sério? Você tá solteiro de verdade?"
"Faz diferença?"
Pronto. Agora ela me deixa.
"Não."
A estas alturas já saí do clima da banda. Olhos verdes, etc. Quem sabe rende alguma coisa. No mínimo treino um pouco de esgrima verbal.
"Como assim, 'não'? Você acha que tudo bem se eu tiver namorada, for casado?"
"Agora não tem ninguém com você. E eu tô aqui."
Olha pro lado de lá do balcão:
“Dá outra cerveja.”
De novo no imperativo. É. Vai ser esgrima verbal. Não dá pra simpatizar com quem fala assim com o barman.
“Sei. E se fosse o seu namorado num bar, sem fazer nada de errado, e alguém começasse a dar em cima dele? Você ia gostar?”
“Eu não tenho namorado. E não tô dando em cima de você.”
“Tá, sim.”
“Você é muito convencido.”
“Sou, mas isso não tem nada a ver com a história. O fato é que você tá dando em cima de mim, sim. Se não, estava sentada na mesa do aniversário da sua amiga.”
“Eu não gosto deles.”
“De quem você gosta?”
“Eu gosto de você.”
“Não, não gosta. Você nem me conhece. E eu não gosto de você.”
“Como você pode não gostar de alguém que não conhece?”
“Boa pergunta. Mas não gosto.”
“Quer sair daqui e ir pra algum outro lugar?”
“Boa idéia. Tchau.”
E o pior é que já está tarde demais pra achar outro bar com show de jazz começando.
"Oi, esta cadeira tá ocupada?"
"Não. Pode pegar."
Mas não, não faltava um lugar na mesa dela. Puxa a cadeira e senta. Vira para o barman.
"Ô! Me dá uma Stella."
Assim, no imperativo. Sem nem uma interrogação no fim pra parecer mais simpática. O cara do bar dá um sorriso cínico, pega a cerveja, abre, serve. Marca a comanda.
A essas alturas a banda começa a esquentar. Ótimo. É para isso que venho aqui. Sei o setlist deles de cor. Tocam neste bar uma vez por mês. A próxima música começa como uma versão groovada de Águas de Março, passeia por Smoke on the Water, volta pras Águas de Março e termina com o teclado brincando em torno do riff de Aqualung. Puta banda.
"Posso pegar um cigarro seu?"
Geralmente funciona, mas nem sempre. Normalmente, num bar de jazz desses mais caros, cabeludo de roupa preta e cara de poucos amigos não é abordado e consegue ouvir música em paz. Problema: até em bar de jazz às vezes aparece mulher que gosta de cabeludo de roupa preta. Especialmente se tiver cara de poucos amigos.
"Pode, claro."
Desde que você fique quieta e me deixe ouvir a banda sossegado. Só que, claro, cometo um erro básico. Acendo o cigarro para ela. Bonita. Muito bonita. Olhos verdes, cabelo preto. Já disse.
"Valeu."
"Foi nada."
Agora fica quieta, sério. Já perdi metade da música.
"Você tá sozinho?"
"Tô. Sempre venho aqui quando tô a fim de ficar sozinho e ouvir música."
Nada sutil, mas costuma funcionar.
"Sua namorada não liga?"
Putz, garota... será que você não se toca?
"Tô solteiro."
"Ah, duvido!"
"É um direito seu."
Quem sabe agora eu consigo voltar a prestar atenção na banda.
"É sério? Você tá solteiro de verdade?"
"Faz diferença?"
Pronto. Agora ela me deixa.
"Não."
A estas alturas já saí do clima da banda. Olhos verdes, etc. Quem sabe rende alguma coisa. No mínimo treino um pouco de esgrima verbal.
"Como assim, 'não'? Você acha que tudo bem se eu tiver namorada, for casado?"
"Agora não tem ninguém com você. E eu tô aqui."
Olha pro lado de lá do balcão:
“Dá outra cerveja.”
De novo no imperativo. É. Vai ser esgrima verbal. Não dá pra simpatizar com quem fala assim com o barman.
“Sei. E se fosse o seu namorado num bar, sem fazer nada de errado, e alguém começasse a dar em cima dele? Você ia gostar?”
“Eu não tenho namorado. E não tô dando em cima de você.”
“Tá, sim.”
“Você é muito convencido.”
“Sou, mas isso não tem nada a ver com a história. O fato é que você tá dando em cima de mim, sim. Se não, estava sentada na mesa do aniversário da sua amiga.”
“Eu não gosto deles.”
“De quem você gosta?”
“Eu gosto de você.”
“Não, não gosta. Você nem me conhece. E eu não gosto de você.”
“Como você pode não gostar de alguém que não conhece?”
“Boa pergunta. Mas não gosto.”
“Quer sair daqui e ir pra algum outro lugar?”
“Boa idéia. Tchau.”
E o pior é que já está tarde demais pra achar outro bar com show de jazz começando.
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