Acreditem ou não, há quem diga
que hoje vivem aqui velhos mitos
degredados da Hélade antiga
e dos bosques da Arcádia banidos.
Que uma dríade ainda está viva,
escondida no caos paulistano,
disfarçando-se de executiva,
por detrás de orçamentos e planos.
E que um fauno usa roupas de grife,
camuflando do jeito que pode
sua cauda, seus pelos, seus chifres,
os seus cascos e patas de bode.
A metrópole é um tipo de Hades,
é um mundo distante do seu,
onde matam um no outro as saudades
do que tinham à beira do Egeu.
21 de out. de 2009
17 de out. de 2009
Picadeiro
De frente pra platéia,
o cara equilibra rimas,
joga palavras pra cima
como quem faz malabarismo
com três motosserras ligadas
e seis granadas sem pino,
mas sabe que o público espera
é só pra ver se ele erra.
Só isso e mais nada.
o cara equilibra rimas,
joga palavras pra cima
como quem faz malabarismo
com três motosserras ligadas
e seis granadas sem pino,
mas sabe que o público espera
é só pra ver se ele erra.
Só isso e mais nada.
30 de set. de 2009
Fútil
Agarra a gárgula pela garganta.
Garroteia.
Amarra a aranha na própria teia.
Põe pra correr o próprio Cão.
Mata o monstro e mostra o pau.
(em vão)
De que te vale qualquer façanha,
herói, se, afinal,
a donzela que amas te odeia?
Garroteia.
Amarra a aranha na própria teia.
Põe pra correr o próprio Cão.
Mata o monstro e mostra o pau.
(em vão)
De que te vale qualquer façanha,
herói, se, afinal,
a donzela que amas te odeia?
29 de set. de 2009
Sobre um mote
("Recaída é o nickname do diabo." - Tati Bernardi)
O certo seria, no fim duma história,
deixar para lá e se dar por contente.
Deu certo? Beleza. Não deu? Tudo joia.
Azar, paciência. E bola pra frente.
Problema é a gente ficar nessa noia,
de achar que o tal fim pode ser diferente,
sonhar fantasias que em nada se apoiam,
não ver que é um erro e tentar novamente.
Descaminho que começa onde termina,
cicatriz que se desdobra em chaga aberta,
cobra estúpida que morde o próprio rabo.
Insistência em conhecer uma só sina,
um destino só que nunca se completa.
Recaída é o nickname do diabo.
O certo seria, no fim duma história,
deixar para lá e se dar por contente.
Deu certo? Beleza. Não deu? Tudo joia.
Azar, paciência. E bola pra frente.
Problema é a gente ficar nessa noia,
de achar que o tal fim pode ser diferente,
sonhar fantasias que em nada se apoiam,
não ver que é um erro e tentar novamente.
Descaminho que começa onde termina,
cicatriz que se desdobra em chaga aberta,
cobra estúpida que morde o próprio rabo.
Insistência em conhecer uma só sina,
um destino só que nunca se completa.
Recaída é o nickname do diabo.
26 de set. de 2009
V. zoster
Algumas mulheres são doenças.
Vêm, vão, deixam sequelas.
Algumas, mas não aquela.
Se doença era, era catapora:
Deixou marcas? Sim, deixou.
Mas depois foram embora.
Vêm, vão, deixam sequelas.
Algumas, mas não aquela.
Se doença era, era catapora:
Deixou marcas? Sim, deixou.
Mas depois foram embora.
24 de set. de 2009
Notícias populares
O mau poeta acossa a musa.
Não admite recusa,
nem se conforma com um “não”.
O mau poeta não desiste:
protocolo, formulário em três vias,
requerimento, recurso — em vão.
Ataca, então, rasga-lhe a blusa:
abuso em busca de poesia,
estupro à guisa de inspiração.
Crava os dentes no peito
ainda quente, embora inerte,
e suga até que repleto
do sangue que o seio verte.
Foge dali safisteito,
pensando com seus botões,
“Agora me sai um poema que preste”.
Não admite recusa,
nem se conforma com um “não”.
O mau poeta não desiste:
protocolo, formulário em três vias,
requerimento, recurso — em vão.
Ataca, então, rasga-lhe a blusa:
abuso em busca de poesia,
estupro à guisa de inspiração.
Crava os dentes no peito
ainda quente, embora inerte,
e suga até que repleto
do sangue que o seio verte.
Foge dali safisteito,
pensando com seus botões,
“Agora me sai um poema que preste”.
21 de set. de 2009
Caco
Miguel escolheu a faculdade por eliminação: vinha de uma dessas famílias tradicionais cujos bons filhos estudam medicina, direito, administração, engenharia, economia. Não gostava de matemática e biológicas nunca tinham sido seu forte. Sobrou o direito. Quando passou no vestibular, não tinha nem pensado em ser qualquer outra coisa além de advogado cível. Direito tributário, empresarial. Alguma coisa assim.
Apaixonou-se pelo direito penal no meio do segundo ano. Arrumou estágio em uma ONG de assessoria jurídica. Trabalho voluntário, no fundo: gastava mais em transporte e alimentação do que ganhava. Mas ficou fascinado com o mundo antes desconhecido de quem tinha nascido ferrado. Começou a ver as coisas de um jeito diferente, como as viam os ladrões de galinha que ajudou a livrar de penas pesadas e descabidas. Decidiu que o que queria era impedir, como pudesse, que fosse para a cadeia quem não precisasse mesmo estar lá.
Para desespero dos pais, resolveu ser delegado. Formado, prestou concurso e passou na primeira tentativa. Foi mandado para um distritozinho do interior (onde, ironicamente, chegou a investigar casos reais de furto de galinhas) e ficou conhecido como alguém que não tinha medo de mandar passear os grandes da região quando se tratava de quem nada ou pouco devesse à Justiça. Criou fama de incorruptível. Chamou a atenção dos movimentos sociais da região. Acabou aparecendo numa grande revista semanal como exemplo da boa polícia.
***
Acordou de madrugada com o barulho do toque do celular. Era um amigo da família, pediatra dos seus sobrinhos, que por acaso tinha sítio na região
“Mike, preciso da sua ajuda.”
“Que aconteceu?” Não era raro parentes e amigos lhe pedirem conselhos.
“Seguinte: o Caco, meu filho mais velho, você conhece, foi parado numa blitz aí onde você está. Ele tava com maconha, cara, acredita? O Caco, com maconha? E ainda se apavorou e fez a burrada de dizer que não era dele.”
“Porra, Luiz. Que você quer que eu faça?”
“Cara, pelo amor de deus, me quebra essa. O Caco é um garoto legal, estudioso. Fez uma puta burrada, mas não merece se ferrar por causa disso. Fala com os caras, explica pra eles.”
O fato é que o Caco era, mesmo, um garoto legal. Não merecia ser preso, do mesmo jeito que não mereciam aqueles ladrões de galinha todos. Resolveu ir até onde tinha combinado com a PM montar o bloqueio daquele começo de fim-de-semana prolongado. Chegando lá veria se dava para fazer alguma coisa. Vestiu-se e foi a pé mesmo para não chamar atenção.
De longe viu as viaturas de giroflex ligado e o Caco sentado no meio fio com a cabeça baixa, apoiada nas mãos. Aproximou-se do tenente que comandava a operação, cumprimentou e explicou que o rapaz era filho de um amigo. Perguntou se o menino estava bem quando foi parado. “Tava, delegado. Nem bebido nada tinha. Fez bafômetro e tudo.” “A documentação tá em ordem?” Estava. “Quanto ele tava carregando?” “Umas dez gramas.” Deixou passar batido o erro de concordância. Pensou um pouco, tomou coragem. “Tenente, tem jeito de livrar a cara do menino? Eu me responsabilizo por ele.” Liberou, claro. Aliás, nem Miguel nem Caco tinham como saber disso, mas o tenente ia liberar de qualquer jeito. Ficou com pena do moleque.
Entrou no carro do filho do amigo com o menino no banco do passageiro e foi para casa. No caminho, deu-lhe uma bronca de deixar calo e mandou o garoto ligar para o pai, dizer que estava tudo em ordem e que passaria a noite na casa do “tio”. Estacionou na rua e entraram. Mandou o moleque dormir no sofá. O pai viria no dia seguinte e seguiria o menino de carro até São Paulo para ter certeza de que não iria se meter de novo em encrenca.
Tomavam café-da-manhã quando Luiz chegou, agradecendo, com cara de quem está quase chorando de vergonha. E trazendo uma garrafa de uísque dessas que custam quase metade do vencimento de um delegado em começo de carreira. “Que é isso, Luiz. Não posso aceitar.” “Bobagem, Mike. Isso não é propina nem nada, é uma demonstração de gratidão. Aceita, por favor; eu vou me sentir menos mal se você aceitar.”
***
Foi transferido para a Corregedoria na Capital depois de alguns anos de bons serviços. A aquela altura já tinha uma respeitável coleção de garrafas de puro malte, entre outras coisas.
Apaixonou-se pelo direito penal no meio do segundo ano. Arrumou estágio em uma ONG de assessoria jurídica. Trabalho voluntário, no fundo: gastava mais em transporte e alimentação do que ganhava. Mas ficou fascinado com o mundo antes desconhecido de quem tinha nascido ferrado. Começou a ver as coisas de um jeito diferente, como as viam os ladrões de galinha que ajudou a livrar de penas pesadas e descabidas. Decidiu que o que queria era impedir, como pudesse, que fosse para a cadeia quem não precisasse mesmo estar lá.
Para desespero dos pais, resolveu ser delegado. Formado, prestou concurso e passou na primeira tentativa. Foi mandado para um distritozinho do interior (onde, ironicamente, chegou a investigar casos reais de furto de galinhas) e ficou conhecido como alguém que não tinha medo de mandar passear os grandes da região quando se tratava de quem nada ou pouco devesse à Justiça. Criou fama de incorruptível. Chamou a atenção dos movimentos sociais da região. Acabou aparecendo numa grande revista semanal como exemplo da boa polícia.
***
Acordou de madrugada com o barulho do toque do celular. Era um amigo da família, pediatra dos seus sobrinhos, que por acaso tinha sítio na região
“Mike, preciso da sua ajuda.”
“Que aconteceu?” Não era raro parentes e amigos lhe pedirem conselhos.
“Seguinte: o Caco, meu filho mais velho, você conhece, foi parado numa blitz aí onde você está. Ele tava com maconha, cara, acredita? O Caco, com maconha? E ainda se apavorou e fez a burrada de dizer que não era dele.”
“Porra, Luiz. Que você quer que eu faça?”
“Cara, pelo amor de deus, me quebra essa. O Caco é um garoto legal, estudioso. Fez uma puta burrada, mas não merece se ferrar por causa disso. Fala com os caras, explica pra eles.”
O fato é que o Caco era, mesmo, um garoto legal. Não merecia ser preso, do mesmo jeito que não mereciam aqueles ladrões de galinha todos. Resolveu ir até onde tinha combinado com a PM montar o bloqueio daquele começo de fim-de-semana prolongado. Chegando lá veria se dava para fazer alguma coisa. Vestiu-se e foi a pé mesmo para não chamar atenção.
De longe viu as viaturas de giroflex ligado e o Caco sentado no meio fio com a cabeça baixa, apoiada nas mãos. Aproximou-se do tenente que comandava a operação, cumprimentou e explicou que o rapaz era filho de um amigo. Perguntou se o menino estava bem quando foi parado. “Tava, delegado. Nem bebido nada tinha. Fez bafômetro e tudo.” “A documentação tá em ordem?” Estava. “Quanto ele tava carregando?” “Umas dez gramas.” Deixou passar batido o erro de concordância. Pensou um pouco, tomou coragem. “Tenente, tem jeito de livrar a cara do menino? Eu me responsabilizo por ele.” Liberou, claro. Aliás, nem Miguel nem Caco tinham como saber disso, mas o tenente ia liberar de qualquer jeito. Ficou com pena do moleque.
Entrou no carro do filho do amigo com o menino no banco do passageiro e foi para casa. No caminho, deu-lhe uma bronca de deixar calo e mandou o garoto ligar para o pai, dizer que estava tudo em ordem e que passaria a noite na casa do “tio”. Estacionou na rua e entraram. Mandou o moleque dormir no sofá. O pai viria no dia seguinte e seguiria o menino de carro até São Paulo para ter certeza de que não iria se meter de novo em encrenca.
Tomavam café-da-manhã quando Luiz chegou, agradecendo, com cara de quem está quase chorando de vergonha. E trazendo uma garrafa de uísque dessas que custam quase metade do vencimento de um delegado em começo de carreira. “Que é isso, Luiz. Não posso aceitar.” “Bobagem, Mike. Isso não é propina nem nada, é uma demonstração de gratidão. Aceita, por favor; eu vou me sentir menos mal se você aceitar.”
***
Foi transferido para a Corregedoria na Capital depois de alguns anos de bons serviços. A aquela altura já tinha uma respeitável coleção de garrafas de puro malte, entre outras coisas.
18 de set. de 2009
SM
Há momentos para a delicadeza das rendas.
Mas não hoje: corpete de couro, correntes.
É noite de algemas e vendas.
E ninguém tem nada com isso,
A não ser a gente.
Você se rende, se entrega,
Se dá ao luxo da confiança cega
No carrasco que elegeu.
Em pé ao pé do leito, o tal eleito, eu,
Te faço brinquedo e deleite.
Te quero dada de corpo e mente,
Te quero em bondage, amada, afoita,
Te quero em estro, lasciva, felina,
Te ouvir gemer meu nome entre dentes.
A cada meu toque de afago-açoite
E cada beijo quente da parafina.
Se quiser, depois a gente troca,
Você senhora, eu submisso.
Danem-se vizinhos e fofocas!
Ninguém tem nada com isso.
Há muitas e várias formas de gozo
E titio Sade ficaria orgulhoso.
Mas não hoje: corpete de couro, correntes.
É noite de algemas e vendas.
E ninguém tem nada com isso,
A não ser a gente.
Você se rende, se entrega,
Se dá ao luxo da confiança cega
No carrasco que elegeu.
Em pé ao pé do leito, o tal eleito, eu,
Te faço brinquedo e deleite.
Te quero dada de corpo e mente,
Te quero em bondage, amada, afoita,
Te quero em estro, lasciva, felina,
Te ouvir gemer meu nome entre dentes.
A cada meu toque de afago-açoite
E cada beijo quente da parafina.
Se quiser, depois a gente troca,
Você senhora, eu submisso.
Danem-se vizinhos e fofocas!
Ninguém tem nada com isso.
Há muitas e várias formas de gozo
E titio Sade ficaria orgulhoso.
9 de set. de 2009
Vazia
(originalmente publicado na Falópios sob o pseudônimo "Gilda Mineli")
Sou um resto de nada hoje em dia,
Sou refém e de mim sentinela;
A mulher que, de triste, se via
Personagem na voz de Florbela;
A garota que só no seu canto
Tinha medo do mundo lá fora
E cantava baixinho enquanto
Lia amores de Lygia e de Cora;
A menina que amor nenhum tinha
E ninguém quem seus sonhos ouvisse
E chorava seu choro – sozinha –
Com Cecilia, com Hilda e Clarice;
Que em versos buscava guarida
(de Clarice, de Lygia e de Hilda)
E num mar de si mesma era ilha
(Coralina, Florbela e Cecilia).
Sou um resto de nada hoje em dia,
Sou refém e de mim sentinela;
A mulher que, de triste, se via
Personagem na voz de Florbela;
A garota que só no seu canto
Tinha medo do mundo lá fora
E cantava baixinho enquanto
Lia amores de Lygia e de Cora;
A menina que amor nenhum tinha
E ninguém quem seus sonhos ouvisse
E chorava seu choro – sozinha –
Com Cecilia, com Hilda e Clarice;
Que em versos buscava guarida
(de Clarice, de Lygia e de Hilda)
E num mar de si mesma era ilha
(Coralina, Florbela e Cecilia).
26 de ago. de 2009
Confiança
Meia hora para o show. Anos atrás estaria acendendo o enésimo cigarro do dia e bebendo uísque ou vodka no gargalo. Ao contrário de tantos companheiros daquela época, nunca tinha caído na tentação das drogas mais pesadas; lhe bastavam a nicotina e o álcool. Os companheiros se foram, quase todos; ele ainda estava de pé – e às vezes se perguntava se valia a pena. Tinha largado tanto uma quanto o outro há anos e agora se contentava com um antiinflamatório e um analgésico engolidos com um gole de coca zero. Além da hipertensão, havia o diabetes.
Quinze minutos para o show. Estaria no enésimo cigarro mais dois a essas alturas. E naquele estado entre sóbrio e bêbado que com tanto cuidado cultivava. Observando os companheiros de banda mais para lá do que para cá, consciências alteradas, mas talento imaculado. Os companheiros se foram, quase todos, menos o que entra no camarim. Tinha sido baixista da primeira formação da banda. Mas nunca muito bom. Quando surgiu o primeiro hit, a gravadora sugeriu uma substituição e ele, humilde, aceitou. Por insistência do líder, foi contratado como assistente do manager. E encontrou-se: dois anos depois era o empresário oficial daquela já grande e ainda crescente potência da música. Ao longo das mais de duas décadas, cuidara da banda como se dela fosse parte. Como de fato era, de certa forma. Ou tinha sido. Ou algo assim. Um homem de confiança.
No camarim, a conversa de sempre: “Tudo em ordem, chefe?” Desde que passara de músico a burocrata, sempre o chamara de chefe, em tom de brincadeira. “Tudo”. “E a mão? Tá doendo?” – logo antes de todo show, a mesma pergunta, desde que a artrite fora diagnosticada. “Não, hoje tá boa”. Sempre a mesma resposta. E, por trás da resposta, o que os dois sabiam e nunca tinham dito: um dia a mão não ia aguentar riff após riff; solo após solo. O dinossauro ia morrer em praça pública.
Nunca tinham dito, mas uma hora iriam dizer e foi naquele dia. “Cara, preciso me aposentar. Parar antes de fazer feio”. “Que nada, chefe. Você ainda tem anos pela frente”. Sempre assim: de um lado os músicos e seus egos frágeis, seus vícios bobos. Do outro, o executivo que só fazia administrar finanças, vaidades, inseguranças e nunca mais tinha posto a mão num instrumento. “Não sei o que seria de mim se não fosse você”. “Claro que sabe. Você ia fazer sucesso de qualquer jeito. Talento como o seu?” Condescendência e adulação. Bases estranhas para uma amizade de mais de trinta anos, desde antes de descobrirem a música. O ex-baixista ruim sentou-se ao lado do guitarrista prodígio. “Quer a bolsa de água quente?” A resposta foi só um abanar desanimado da cabeça. “Quer alguma outra coisa?” Mesma resposta. Ficaram sentados em silêncio.
Cinco minutos para o show. Levantaram-se. “Cara, preciso mesmo parar logo”. “Não se preocupa. Vai dar tudo certo.” Sorriram um para o outro e foram cada um para o seu lado: o músico para o backstage; o empresário para a cabine de som. Vai dar tudo certo, repetia internamente o guitarrista, ouvindo a voz do amigo. Vai dar tudo certo. Entrou no palco ainda escuro, pegou a Gibson e esperou as luzes.
Dez minutos de show. As mãos, já aquecidas, não doíam mais. “Vai dar tudo certo.” Tinha até incluído no setlist desta turnê um medley que passava por aquela do Bob Marley que dizia isso.
Vinte minutos de show. Trinta. As mãos já cansadas. Mas sem problemas até agora. Mesmo porque, com o passar dos anos, tinham simplificado as passagens de guitarra, diminuído as extensões de dedo mínimo. Já não era um moleque de vinte anos.
Quarenta minutos. Já não conseguia dizer para si mesmo que a mão não doía. Porque doía. Mas repetia para si mesmo “tudo vai dar certo, vai dar certo, every little thing’s gonna be alright”, numa voz que misturava a do Tuff Gong e a do amigo que, fora a música, era a única constante em tantos anos de estrada; que tinha ajudado a lidar com divórcios, pensões, advogados, fazer tentativas e mais tentativas de largar o cigarro e a bebida, a enfrentar os médicos, a encarar um show depois do outro. Sentia um pouco de vergonha de ser condescendente com ele. Mas era assim a amizade: condescendência e adulação. E funcionava. A única constante, a amizade: a confiança que tinha no amigo e que o amigo tinha nele. Sabia muito bem, no fundo, que só não tinha desistido ainda, só não tinha parado por medo de fazer feio, por causa dessa confiança inabalável que o músico sem talento tinha no virtuose. Entre uma música e outra, um gole de chá gelado e mais um analgésico. Ia dar tudo certo.
Quase uma hora de show. As apresentações da banda hoje em dia duravam pouco mais do que isso. A mão já não aguentava as maratonas de antigamente. Quase uma hora de show e, com uma hora exata, entrava aquela música. Aquela que tinha feito com que passasse de guitarrista de sucesso a deus do rock. Aquela que os moleques suavam para aprender. Aquela do solo heróico de seis minutos. Aquela que tinha virado uma forma especialmente cruel de auto-flagelação. Aquela única que os fãs faziam questão absoluta de ouvir e que não podia sair do programa. Tinham tentado uma vez. Foi a pior turnê da história da banda. Os jornais avisavam antes: não espere ouvir Aquela.
O guitarrista respirava fundo e tentava esquecer a dor. Na metade da música já sabia que dessa vez ia ser difícil. Os remédios já não bastavam. Sentia cada tendão como se fosse uma corda de mizão esticada até virar um mizinho. Mas respirava fundo e ia em frente. Já nem estava mais preocupado com a platéia, nem com fazer feio. No fundo, o que queria mesmo era não decepcionar o amigo. Ou mostrar para ele que ainda era o gênio das cordas e sempre ia ser. Mas dizia para si mesmo que era para justificar aquela confiança.
No meio do solo, um pequeno erro, mas achou que ninguém tinha percebido. Dois compassos depois, outro erro. Não ia dar. Olhou na direção da cabine de som, que não via por causa das luzes. Mas olhou assim mesmo, querendo que o amigo visse em seus olhos o pedido de desculpas por ter traído sua confiança. A mão já não aguentava mais. Errou de novo. Feio
E viu que ninguém percebeu. Tinha perdido quatro notas seguidas, mas elas vieram no retorno. Parou de tocar. E a guitarra continuava. Aos poucos o público parou de bater palmas no ritmo da música. O guitarrista base parou também e, logo em seguida, o baixo. A bateria e o teclado demoraram um pouco mais. Mas a guitarra solo continuava. Daí vieram as vaias.
Na cabine de som, o ex-baixista gargalhava e brincava com a caixa do CD de playback que há anos deixava preparado para esse dia.
Quinze minutos para o show. Estaria no enésimo cigarro mais dois a essas alturas. E naquele estado entre sóbrio e bêbado que com tanto cuidado cultivava. Observando os companheiros de banda mais para lá do que para cá, consciências alteradas, mas talento imaculado. Os companheiros se foram, quase todos, menos o que entra no camarim. Tinha sido baixista da primeira formação da banda. Mas nunca muito bom. Quando surgiu o primeiro hit, a gravadora sugeriu uma substituição e ele, humilde, aceitou. Por insistência do líder, foi contratado como assistente do manager. E encontrou-se: dois anos depois era o empresário oficial daquela já grande e ainda crescente potência da música. Ao longo das mais de duas décadas, cuidara da banda como se dela fosse parte. Como de fato era, de certa forma. Ou tinha sido. Ou algo assim. Um homem de confiança.
No camarim, a conversa de sempre: “Tudo em ordem, chefe?” Desde que passara de músico a burocrata, sempre o chamara de chefe, em tom de brincadeira. “Tudo”. “E a mão? Tá doendo?” – logo antes de todo show, a mesma pergunta, desde que a artrite fora diagnosticada. “Não, hoje tá boa”. Sempre a mesma resposta. E, por trás da resposta, o que os dois sabiam e nunca tinham dito: um dia a mão não ia aguentar riff após riff; solo após solo. O dinossauro ia morrer em praça pública.
Nunca tinham dito, mas uma hora iriam dizer e foi naquele dia. “Cara, preciso me aposentar. Parar antes de fazer feio”. “Que nada, chefe. Você ainda tem anos pela frente”. Sempre assim: de um lado os músicos e seus egos frágeis, seus vícios bobos. Do outro, o executivo que só fazia administrar finanças, vaidades, inseguranças e nunca mais tinha posto a mão num instrumento. “Não sei o que seria de mim se não fosse você”. “Claro que sabe. Você ia fazer sucesso de qualquer jeito. Talento como o seu?” Condescendência e adulação. Bases estranhas para uma amizade de mais de trinta anos, desde antes de descobrirem a música. O ex-baixista ruim sentou-se ao lado do guitarrista prodígio. “Quer a bolsa de água quente?” A resposta foi só um abanar desanimado da cabeça. “Quer alguma outra coisa?” Mesma resposta. Ficaram sentados em silêncio.
Cinco minutos para o show. Levantaram-se. “Cara, preciso mesmo parar logo”. “Não se preocupa. Vai dar tudo certo.” Sorriram um para o outro e foram cada um para o seu lado: o músico para o backstage; o empresário para a cabine de som. Vai dar tudo certo, repetia internamente o guitarrista, ouvindo a voz do amigo. Vai dar tudo certo. Entrou no palco ainda escuro, pegou a Gibson e esperou as luzes.
Dez minutos de show. As mãos, já aquecidas, não doíam mais. “Vai dar tudo certo.” Tinha até incluído no setlist desta turnê um medley que passava por aquela do Bob Marley que dizia isso.
Vinte minutos de show. Trinta. As mãos já cansadas. Mas sem problemas até agora. Mesmo porque, com o passar dos anos, tinham simplificado as passagens de guitarra, diminuído as extensões de dedo mínimo. Já não era um moleque de vinte anos.
Quarenta minutos. Já não conseguia dizer para si mesmo que a mão não doía. Porque doía. Mas repetia para si mesmo “tudo vai dar certo, vai dar certo, every little thing’s gonna be alright”, numa voz que misturava a do Tuff Gong e a do amigo que, fora a música, era a única constante em tantos anos de estrada; que tinha ajudado a lidar com divórcios, pensões, advogados, fazer tentativas e mais tentativas de largar o cigarro e a bebida, a enfrentar os médicos, a encarar um show depois do outro. Sentia um pouco de vergonha de ser condescendente com ele. Mas era assim a amizade: condescendência e adulação. E funcionava. A única constante, a amizade: a confiança que tinha no amigo e que o amigo tinha nele. Sabia muito bem, no fundo, que só não tinha desistido ainda, só não tinha parado por medo de fazer feio, por causa dessa confiança inabalável que o músico sem talento tinha no virtuose. Entre uma música e outra, um gole de chá gelado e mais um analgésico. Ia dar tudo certo.
Quase uma hora de show. As apresentações da banda hoje em dia duravam pouco mais do que isso. A mão já não aguentava as maratonas de antigamente. Quase uma hora de show e, com uma hora exata, entrava aquela música. Aquela que tinha feito com que passasse de guitarrista de sucesso a deus do rock. Aquela que os moleques suavam para aprender. Aquela do solo heróico de seis minutos. Aquela que tinha virado uma forma especialmente cruel de auto-flagelação. Aquela única que os fãs faziam questão absoluta de ouvir e que não podia sair do programa. Tinham tentado uma vez. Foi a pior turnê da história da banda. Os jornais avisavam antes: não espere ouvir Aquela.
O guitarrista respirava fundo e tentava esquecer a dor. Na metade da música já sabia que dessa vez ia ser difícil. Os remédios já não bastavam. Sentia cada tendão como se fosse uma corda de mizão esticada até virar um mizinho. Mas respirava fundo e ia em frente. Já nem estava mais preocupado com a platéia, nem com fazer feio. No fundo, o que queria mesmo era não decepcionar o amigo. Ou mostrar para ele que ainda era o gênio das cordas e sempre ia ser. Mas dizia para si mesmo que era para justificar aquela confiança.
No meio do solo, um pequeno erro, mas achou que ninguém tinha percebido. Dois compassos depois, outro erro. Não ia dar. Olhou na direção da cabine de som, que não via por causa das luzes. Mas olhou assim mesmo, querendo que o amigo visse em seus olhos o pedido de desculpas por ter traído sua confiança. A mão já não aguentava mais. Errou de novo. Feio
E viu que ninguém percebeu. Tinha perdido quatro notas seguidas, mas elas vieram no retorno. Parou de tocar. E a guitarra continuava. Aos poucos o público parou de bater palmas no ritmo da música. O guitarrista base parou também e, logo em seguida, o baixo. A bateria e o teclado demoraram um pouco mais. Mas a guitarra solo continuava. Daí vieram as vaias.
Na cabine de som, o ex-baixista gargalhava e brincava com a caixa do CD de playback que há anos deixava preparado para esse dia.
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