1 de abr. de 2010

Ambicanhoto

Não dá pra levar muito a sério
quem trave no crânio combate
incessante entre os dois hemisférios.
Seja lá guerra fria ou détente,
Ou quiçá Apocalypse Now.
Acabo ficando eu refém
Da guerra pelo córtex frontal.
Dançando com dois pés esquerdos,
Nas mãos dos meus lobos, brinquedo.
E se quero correr para um lado
Acabo correndo pro errado.
Não podia, enfim, eu dar certo:
Sou canhoto num corpo de destro.

29 de mar. de 2010

Entrelinhas

Esse engenhoso disfarce,
persona que me mascara,
simultaneamente oculta
dos estultos minha face
e aos que sabem ler revela
sem retoques minha cara.

26 de mar. de 2010

Projeto: Palavra-Porrada

Lançado o "P:P-P I Round", com textos de Ana Cristina Martins, Antonio de todos os Cantos, Cairo Trindade, Flá Perez, Flávio UmagumA, Hamilton Brito, Helena Jorge, Jairo Alt, Lívia Abrunhosa, Nestor Lampros, Ogro da Fiona, Paulo Gomes, Rosa Cardoso, Ruy Villani e Ükma, além dos responsáveis pela bagunça, Lúcia Gönczy e Allan Vidigal.

24 de mar. de 2010

Relatividade

Se você não está por perto,
enfurece o próprio tempo
e o relógio, em protesto,
entra em greve: gira

lxxxxexxxxnxxxxtxxxxo

22 de mar. de 2010

Emoldurada

Viro pro lado e vejo
(filme adulto sem cortes,
revista de sacanagem),
em chiaroscuro e água-forte
à luz que vem da janela,
a obra-prima do vernissage.
Ainda sinto seu cheiro
doce e quente sobre a pele.
Ela dá uma de inocente
(nem desenho do Zéfiro,
nem bem óleo sobre tela),
espreguiça e faz que não sente
os meus olhos sobre a dela.

21 de mar. de 2010

S/T

Um amor que se preze é espumante:
como taça de Dom Pérignon,
sal-de-fruta em manhã de ressaca,
ou a boca dum doberman louco.
É inconstante. E é aí que tá a graça.

18 de mar. de 2010

Autoschadenfreude

Pingou pimenta
nos próprios olhos.
Foi ao delírio.

Dessoneto

Tem autor que só escreve quadrado,
Verso e estrofe bem dentro do esquadro,
E que pensa que rima é besteira.

Mas será? Pode ser, eu sei lá...
Cá pra nós, rima pobre me cheira
A desculpa pra mal sonetar.

Já que sei muito bem que não encaixo
Nesses moldes de autor de soneto,
Desmontei seu formato cabresto
E virei de cabeça pra baixo.

Que que foi, com essa cara de tacho?
Se te deixa mais calmo, prometo:
Não esquenta a cabeça com o texto,
Quase tudo o que escrevo é de escracho

5 de mar. de 2010

Cinder Block

Ando pouco me fudendo
Pra essas de estranhamento,
Conteúdo, continente,
Significante, significado.
Se um poema for concreto
Que seja concreto armado.
De preferência até os dentes.

4 de mar. de 2010

Confissão

Esquece o cabelão, as tatuagens,
A cara de mau e a roupa preta.
Esquece, sério, é só personagem:
No fundo eu sou um tremendo careta.