Que trabalho tu me deste...
se eu pudesse, te diria
dessa angústia, da tensão.
Quem me dera tu soubesses:
tantas noites mal dormidas
para ter teu coração.
Quantos planos malfadados,
quantos erros, quantos medos,
quantas vezes pensei: “Não”.
Mas segui, era meu fardo
te fazer abrir o peito
e assim ter teu coração.
Afinal, um belo dia,
me valeu todo esse esforço
e eu o tive em minhas mãos.
Sobre a pia da cozinha,
temperado com sal grosso,
como é bom teu coração!
26 de jan. de 2011
17 de jan. de 2011
Tara
Na beira da estrada, mulher de todos, sempre sozinha.
O perfume barato mal cobre a cachaça,
o suor e a fumaça de diesel e gasolina,
o cheiro de borracha de pneu e camisinha.
Parada em parada,
boleia em boleia,
a puta de estrada
tonteia, chapada
de pinga, cansaço e rebite.
A queda, o tropeço
da mulher usada e triste
na beira da estrada:
seu último beijo,
um Volvo seis eixos,
tara de dez toneladas
O perfume barato mal cobre a cachaça,
o suor e a fumaça de diesel e gasolina,
o cheiro de borracha de pneu e camisinha.
Parada em parada,
boleia em boleia,
a puta de estrada
tonteia, chapada
de pinga, cansaço e rebite.
A queda, o tropeço
da mulher usada e triste
na beira da estrada:
seu último beijo,
um Volvo seis eixos,
tara de dez toneladas
13 de jan. de 2011
14 de dez. de 2010
Para não mais beijar
Nem línguas, nem lábios, nem bocas,
mas vermes lentos,
lesmas quentes:
acasalamento
de moluscos sem concha
entre os dentes.
mas vermes lentos,
lesmas quentes:
acasalamento
de moluscos sem concha
entre os dentes.
13 de dez. de 2010
Terra Incognita
Como se fosse eu navegante
do tempo do Descobrimento;
você Porto Seguro e eu caravela;
como se fosse eu entrada, bandeira,
e você Pindorama,
demarco, desbravo.
Você reclama, mas deixa.
Te estudo, te exploro.
Você se revela.
Abro trilhas na floresta,
mapeio a sua costa,
cada palmo do seu território.
Você protesta, mas gosta.
do tempo do Descobrimento;
você Porto Seguro e eu caravela;
como se fosse eu entrada, bandeira,
e você Pindorama,
demarco, desbravo.
Você reclama, mas deixa.
Te estudo, te exploro.
Você se revela.
Abro trilhas na floresta,
mapeio a sua costa,
cada palmo do seu território.
Você protesta, mas gosta.
10 de dez. de 2010
Seios
Desculpe se pareço distante,
perdoe a distração,
o olhar alheio...
(não há atenção que resista
ao chamado dos seus seios)
perdoe a distração,
o olhar alheio...
(não há atenção que resista
ao chamado dos seus seios)
7 de dez. de 2010
Taras
Inventa-me, amor, uma tara sem par.
Desvenda o universo das parafilias.
Revira grimórios, estelas, papiros,
revela em antigos mistérios e ritos
fetiches quaisquer que a nós dois enfeiticem
(é que o amor, meu amor, quase a tudo resiste,
mas não à armadilha fatal da mesmice).
Desvenda o universo das parafilias.
Revira grimórios, estelas, papiros,
revela em antigos mistérios e ritos
fetiches quaisquer que a nós dois enfeiticem
(é que o amor, meu amor, quase a tudo resiste,
mas não à armadilha fatal da mesmice).
6 de dez. de 2010
Toponímia
Pauliceias, São Paulos e Sampas
as há aos milhares, milhões.
A minha é a mais suja e a mais pura;
a um só tempo é a mais rude e a mais santa.
A minha São Paulo é a mais linda
e atende, pagã e profana,
apenas por Piratininga.
as há aos milhares, milhões.
A minha é a mais suja e a mais pura;
a um só tempo é a mais rude e a mais santa.
A minha São Paulo é a mais linda
e atende, pagã e profana,
apenas por Piratininga.
2 de dez. de 2010
Da Temática
Desde que a gente é gente,
desde que o mundo é mundo,
só tem importância um tema,
um só assunto interessa.
O resto? Ora, o resto!
São coisas que a gente inventa
pra ajudar a passar o tempo em que não dá pra fazer sexo.
desde que o mundo é mundo,
só tem importância um tema,
um só assunto interessa.
O resto? Ora, o resto!
São coisas que a gente inventa
pra ajudar a passar o tempo em que não dá pra fazer sexo.
26 de nov. de 2010
Cana
Que pensaram as araras,
divisando ao longe as naus
naquele dia de abril?
Que terão pensado as onças,
as tainhas e os saguis
quando os botes do homem branco
vieram dar ao litoral?
Teriam previsto o destino?
Teriam sentido que ali
começava a impor-se a ordem?
Quem sabe se anteviram o final
escrito nas entrelinhas
das mensagens de Cabral
e da carta de Caminha?
Se pressentiram o fim do caos,
do caos darwinista,
do caos colorido,
do caos tropical?
Terão percebido, aquele dia,
que logo, bem logo veriam,
no lugar do Santo Caos,
monocultura, monotonia?
divisando ao longe as naus
naquele dia de abril?
Que terão pensado as onças,
as tainhas e os saguis
quando os botes do homem branco
vieram dar ao litoral?
Teriam previsto o destino?
Teriam sentido que ali
começava a impor-se a ordem?
Quem sabe se anteviram o final
escrito nas entrelinhas
das mensagens de Cabral
e da carta de Caminha?
Se pressentiram o fim do caos,
do caos darwinista,
do caos colorido,
do caos tropical?
Terão percebido, aquele dia,
que logo, bem logo veriam,
no lugar do Santo Caos,
monocultura, monotonia?
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