22 de mai. de 2011

Santuário

Quando talvez não me encontre,
não me procure
no escuro onde me escondo:
não é seguro (aqui há monstros).
Aqui, apenas vento frio,
água parada, rocha dura.
E nós, os monstros.

28 de abr. de 2011

Haikai tem kigo
e tem sempre 17
5-7-5

5 de abr. de 2011

Servil

Se quiser, conte comigo
para nunca estar sozinha.
Deixe aos meus cuidados
a faxina e a cozinha,
levar as crianças pra escola
e fazer supermercado
(se quiser vir junto, obrigado,
mas nem pense em levar as sacolas).
Pra pregar botão, trocar pneu,
pagar conta no banco, varrer a calçada,
saiba a quem recorrer: eu.
Posso até lavar sua roupa,
passar as peças mais delicadas.
E pras horas em que isso não baste,
deixo ao seu serviço e vontade
meu pau de dez polegadas.

16 de mar. de 2011

Global Alfa

Há um pouco do agreste
aqui no Sudeste;
ecos da caatinga
no concreto de Piratininga.
Há algo dos pampas
no asfalto de Sampa
e o ar paulistano
traz consigo um quê do minuano.

Nas alamedas dos Jardins,
pedaços de Roma, Chicago e Berlim
e a Terra da Garoa
vai ser sempre um pouco Lisboa.

E ainda que revelem-se aqui
(que não se negue e nem sejamos omissos),
nas favelas e cortiços,
reflexos de Somália e de Haiti,
esta terra-mãe adotiva
que é um pouco Inglaterra, Japão e Bolívia
é o que é porque é tudo isso.

13 de mar. de 2011

Culto

Adora-me, genuflexa,
sê hetaera e ninfa,
venera em mim Príapo e Pã.
Recebe entre as mãos
o ícone e signo da tua devoção.
Acolhe sobre a língua
o sacramento, a eucaristia
que te dá teu deus pagão.

10 de mar. de 2011

Já Deu, Né?

Ai, musa, liberta-nos do jugo
de marginais de boutique
e malditos de araque.
De beats requentados
que soam como tradução do Google
de Ginsberg e Kerouac.

Conclusão

Lida a crítica de cabo a rabo,
devassada a teoria literária,
constato o inconteste fato:
um poema só é bom quando agrada
tanto a quem conhece o riscado
quanto a quem não manja nada.

8 de mar. de 2011

Post-It

Lembrete aos poetas,
citando João Cabral:
um poema é um dejeto,
é apenas um excreta,
um detrito, afinal,
que o cérebro expele
como o corpo expele merda.

4 de mar. de 2011

Aqui

Aqui, onde espreitam, escondidas,
as vozes eternas que recitam
as cartas que deixam os suicidas;
onde nascem as dores sem cura
dos membros fantasmas dos amputados;
aqui, onde escondes teus segredos
e ocultas teus medos e vergonhas,
te aguardam os pesadelos que sonhas.

3 de mar. de 2011

Alheio

Ausente do mundo que o desabriga,
um menino sem nome inspira o fogo
que arranca à força de dentro da pedra.
No torpor induzido a que se entrega,
inspira trevas pra tapar o oco,
o vazio que lhe preenche a barriga.
É um dia, mais um dia da refrega
de seu corpo esquálido, parco e pouco
com um mundo que o quer morto. Quem liga?