29 de jul de 2009

Errata, ou "Saindo do Eremitério, parte II"

Tá. Lembra a Parte I dessa bagaça? Lembra mesmo? Você leu? Ah, então foi você... Bom, deixa pra lá. É o seguinte: esquece. Foi mal, mas esquece. Principalmente a segunda parte do último parágrafo.

Quer saber? Encheu o saco. Encheu o saco ser o cara que respeita o relacionamento dos outros e faz papel de palhaço. Que respeita o relacionamento dos outros, mas quando leva um belo par de chifres continua tratando as pessoas envolvidas com toda a civilidade do mundo. Enfim, que só se fode.

Encheu o saco ser o cara que coloca os interesses das pessoas à frente dos próprios, que para tudo pra dar uma mão na hora que alguém precisa e acaba ficando com a vida atrasada. Que oferece seus contatos pra quebrar galho de meio mundo. Que se vira do avesso pra ajudar quem mal conhece, mas que poucas vezes ouviu de alguém: "e com você, cara, tá tudo em ordem?" Enfim, que só se fode.

Encheu o saco ser aquele cara que serve pra levar pra cima e pra baixo, ficar do lado na balada, servindo de guarda-costas-barra-ombro-amigo, com a vantagem de ainda levantar a bola da acompanhante da noite perante o público em geral, com a barriga de tanquinho, o braço e ombro de vinte anos de arco-e-flecha e a capacidade camaleônica de passar em segundos de aristocrata pra rocker pra inteleco pra seja lá o que for, dependendo do ambiente e da ocasião. E que depois vai pra casa sozinho. Enfim, que só se fode.

Encheu o saco e pronto. Encheu o saco ser bonzinho. Encheu o saco deixar de lado a modelete desmiolada que tá a fim de dar pra ir pra balada com alguém de muito conteúdo e pouca vontade. Encheu, mas encheu muito, o saco deixar passar oportunidade de sexo fácil porque ando meio envolvido com alguém que não sabe o que quer da vida, seja lá quem for. Pois quer saber? Vou pegar a porra do duplex bacana na rua bacana do bairro bacana, a porra dos contatos, a porra dos 9,5% de gordura no corpo, a porra do abdome que muito modelo de moda praia venderia a alma para ter, a porra do QI de cento-e-sessenta-e-lá-vai-pedrada e leiloar pra ver quem dá mais.

Enfim, que se foda.

19 de jul de 2009

O outro

Duvide, minha amiga, de quem diga que ando desgovernado, que vago pela madrugada paulistana com garotas de fama aquém de ilibada. Haverá um engano decerto, que de pronto nego. Quem apronta dessas, garanto, não sou eu, quase santo. É o meu alter-ego.

Onde já se viu tão vil injúria? Alguém dessa estatura, da linhagem mais pura, habituado a jantares de doze talheres, frequentar esses bares com essas mulheres? Pare. Ouça. Ainda paira, moça, o último eco do silvo da flauta. Não são minhas as faltas. E, rápido, conto: "é o sátiro". E pronto.

Acha possível que alguém como eu, um lorde, assim se porte? Perdido, sem norte? Em vez de vernissages, concertos, museus e quartetos de cordas, passar a noite nas rodas dos guetos, nos seus becos? Bobagem. Olha para trás, para baixo; vê as pegadas? Eu calço sapatos de cromo e, às vezes, coturnos. E esses rastros são dos cascos desse animal noturno, o fauno. Juro.

Isso não existe. Percebe? Um membro da elite não se envolve com a plebe. Nem se permite ser visto em qualquer inferninho de mau gosto.Isso é de mim, afinal, o oposto. Preste atenção, é importante. Isso só acontece quando me distraio por um instante e Pã aproveita e assume o volante.

7 de jul de 2009

Toma, Morpheus!

Na hora de escolher
entre a pílula azul e a vermelha
eu, que só faço o que me dá na telha,
engoli de uma vez as duas
(lá vai o maluco do Allan
fazer mais uma das suas).

E foi assim que fiquei assim:
cético, cínico, realista; mas
ainda perfeitamente capaz
de sonhar mais, e mais longe,
do quê ou onde alcança a vista.

2 de jul de 2009

Do Que Não Escrevo

Tem gente que escreve coisas bonitas, fáceis e gostosas de ler. Que sabe pegar algum negócio banal e transformar num textinho interessante e pra cima. Falar das coisas boas que acontecem. Deixar a gente com uma sensação de felicidade quando chega o último ponto final. Eu até que gostaria de saber fazer isso, mas não sei. Já tentei. Não sai nada que preste.

Tem gente que consegue falar de amores felizes e relacionamentos que deram certo. Quando me aventuro a falar de relacionamentos, só sai desastre. Tem gente que fala de amigos, de parentes, que canta e decanta o lado bom da humanidade. Eu, francamente, desconfio que a humanidade em geral, se é que tem um lado bom, faz o que pode pra se livrar dele.

Tem gente que fala do que há de belo na natureza. Eu, quando falo de natureza, é como metáfora ou analogia para as podreiras da vida. Tem gente que fala da bondade de deus. Eu sei que deus não existe e, se existisse, seria um tremendo sádico.

Não me entendam mal. Quem não me conhece e lê isso tudo que eu escrevi aí em cima deve estar achando que eu sou um maníaco depressivo. Um misantropo. Um grande chato, no mínimo. Para esclarecer: de depressivo não tenho nada. Passo a maior parte do tempo de bom humor. E quando me irrito — o que é muito, muito raro — não costuma durar mais do que cinco minutos. Misantropo? Não. Vá lá que seja, eu não curto muito a maioria das pessoas. Mas isso não é ser misantropo, é ser seletivo. Chato? Bom, aí fica a critério de vocês. E, para o caso de alguém estar se perguntando: Ateu? You betcha.

Enfim, aquilo que escrevo não é necessariamente aquilo que sou. Eu escrevo o que me incomoda. Eu escrevo o que detesto. Para mim escrever é emese, é sangria, é tosse. É tirar do estômago algo podre que engoli. Tirar do sangue um começo de sepsis. Botar pra fora a espinha de peixe na garganta. Eu escrevo o que, se não escrevesse, me envenenaria aos poucos. E aí sim, se não escrevesse, quem sabe eu não viraria um chato misantropo e mal-humorado?

Escrevo o que me faz mal. Escrevo o mal. Escrevo morte, medo, descaso, doença, pobreza, burrice, crueldade, traição. Escrevo aquilo que tiro de dentro de mim quando ponho no papel ou no HD.

Não escrever sobre você é elogio.