27 de mai de 2009

O Anti-Clown

É até compreensível que ele se tivesse tornado quem foi. Terceiro e mais novo rebento de pai e mãe que vinham, ambos, de longas e honradas linhagens de palhaços de circo, sentiu-se sempre por eles preterido em favor dos irmãos mais velhos, Hilário e Allegra.

Tristão foi filho temporão, nascido quando seus pais já não pensavam em acrescentar à pequena e perfeitamente equilibrada família de dois adultos e duas crianças, dois homens e duas mulheres. A gravidez inesperada impedira a apresentação de sua mãe no Festival de Milão, justamente no ano em que era considerada franca favorita. Talvez por isso tenha sido nosso protagonista registrado com esse nome, embora o pai sempre jurasse que não.

Mas, tenha ou não sido intencional, é pouco provável que o infeliz apelido possa explicar o caminho que escolheu trilhar Tristão. O fato é que sempre apresentara uma tendência para o dramático e o trágico. Dos três irmãos, fora o único a chorar após o parto sem necessidade de intervenção do obstetra. Manifestara, desde a mais tenra idade, violenta alergia ao pó-de-arroz e à tinta facial. Quando, com a família à paisana numa lanchonete do interior, uma garçonete bem intencionada lhe perguntara o que queria ser quando crescesse, respondeu: “Palhaço” e em seguida teve um acesso nervoso e começou a rir e chorar ao mesmo tempo.

Era um super-vilão, como esses de histórias em quadrinhos. Está bem, que seja: não era exatamente um super-vilão. Não fazia o mundo tremer de medo com sua gargalhada maligna. Nem tinha super-heróis contra quem se bater. Sequer super-poderes tinha. Enfim, sejamos objetivos: Tristão gostava de se imaginar um super-vilão. Fora do horário de trabalho, despia-se da fantasia e vagava incógnito pela cidade em que estivesse, vestido como uma pessoa qualquer, praticando pequenas maldades.

Misturava pimenta no açúcar do algodão-doce e anti-ácido no sal das pipocas, amassava botões de flores antes que pudessem desabrochar e furava os pneus do carrinho de sorvete. Só nessas horas é que surgia entre seus lábios um sorriso verdadeiro.

26 de mai de 2009

Lamento de um foodie fodido

I

Ah, quem dera estar em terras de França e, num porão qualquer de Isigny sur Mer, abrir um verdadeiro camembert, em vez dessa porcaria pasteurizada a que a vigilância sanitária nos obriga. E que se danem as lombrigas.

II

Caviar, quem sabe. Sevruga com blinis. Ou, já que estamos no plano da imaginação, um beluga, até? Mas não o de Taubaté. Esse não.

III

Imagine:
Charcutarias finas de Viena. Uma baguette saindo do forno. Uma taça de rustico frutado.

Só mesmo com muito esforço pra esquecer o retrogosto.
(Fanta uva e pão com ovo)

IV
Um dia alguém falou do aspecto fálico do almofariz, da natureza quase onanista de seu manipular. Perdi para sempre o gosto pelo pesto. E cortei relações com aquela vaca freudiana.

V
Hoje, por preguiça de cozinhar, jantei uma sopa Campbell’s de ervilha. Agora, vejam só que maravilha, estou me sentindo super pop-art.

VI
Um foodie qualquer worth his salt
aceitaria de bom grado
um espresso Kopi Luwac
e macarrons da Ladurée.
Mas às vezes basta café
(de coador) e uma caixa
de caramelos de Avaré.

VII
Que Deus me livre de Evian e S. Pellegrino, essas marcas de água pequeno-burguesas. Eu quero é uma taça de Fiuggi ou de Volcanic, uma Sole, ou Siana, ou Lauquen, ou Le Bleu, pra beber euros por gole e sentir na língua algo diferente do gosto ácido-amargo de água de torneira guardada na moringa.

21 de mai de 2009

Fita de Möbius

Quando se conheceram, ficaram os dois meio abestalhados. Num sábado à noite, num bar cheio. À meia noite estourou o transformador do quarteirão e sentaram-se juntos e conversaram tanto e tão bem que nem perceberam quando a luz voltou. Era dia claro quando saíram de lá, sob insistentes pedidos do gerente.

Tiveram um relacionamento estranho, meio platônico. Email, messenger. Encontravam-se às vezes no fim da tarde para tomar vinho em algum bar onde ninguém os conhecesse — a situação não era, digamos, propícia. Depois de algum tempo ela pôs um ponto final naquela história.

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Voltaram a se encontrar uns seis meses depois, agora um pouco menos platônicos. Mas, de novo, havia dificuldades, ainda que outras. E foi ele quem, dessa vez, achou motivo para por um ponto final.

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Foram sete anos entre o segundo ponto final e o segundo reencontro. Que nada teve de platônico. E foram dois meses entre o segundo reencontro e o terceiro ponto final.

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Os dois ao mesmo tempo querem e temem que os pontos finais tenham virado reticências.

16 de mai de 2009

Vingança

Ingrato. É isso que ele é. Só me fode, sempre que tem uma chance. Mesmo depois daquele dia em que convenci a namoradinha dele a não se matar e pensei, “bom, agora ele me dá uma folga”, o cara continua tirando comigo.

Mas agora chega. Vai ver só uma coisa da próxima vez que aparecer com aquele arquinho ridículo. Quero ver como se vira contra um composto Golden Eagle de 80 libras, flecha de carbono e ponta de caça turkeyspur de cromo-molibdênio-vanádio. Tenho treinado. Com scope e gatilho faço agrupamentos de uma polegada a cem metros.

Da próxima vez que o puto aparecer, prego ele na parede pelas asinhas.

7 de mai de 2009

Cantiguinha de auto-escárnio

O predestinado de um lado
e, do outro, ela e a vela.

Entre cristais e aprendizes
(entre Geraldos e Lizes),
como esperar do coitado
que honre suas raízes?

Ovelha negra da família,
vergonha da Vidigalzada:
não sabe fazer poesia.
Quando tenta, só sai piada.