31 de dez de 2008

Alien

Ia escrever um treco de Ano Novo, bem-humorado, feliz, otimista, que tivesse a ver com a vida de todo o mundo. Mas não saía nada além de elocubrações chatas e estéreis sobre a crise financeira. Desisti e resolvi escrever um outro treco de Ano Novo mais intimista, introspectivo, sei lá... Mas saiu meio irritado, raivoso, triste. E o fato é que hoje estou super-feliz e nem um pouco a fim de escrever coisas pesadas. Tudo bem, já escrevi, está quase pronto. Mas não vou publicar. Fica de reserva.

Tenho dois textinhos prontos para casos como este, de querer postar, mas estar sem idéia. Só que os dois também são bravos, tristes, até misantrópicos. E hoje não estou nem um pouco misantropo. Então ficam lá no HD esperando a sua chance. Um dia, quem sabe?

Bom humor parece não fazer bem para a minha inspiração. E fico com cara de bobo aqui na frente do computador, querendo escrever, mas sem conseguir, olhando para a cara do media player na tela da esquerda, fazendo cores e desenhos hipnóticos para mim. Não encontrava meu CD de jazz, devo ter deixado na casa de alguém, e resolvi gravar um novo durante o dia enquanto trabalhava. Só jazz, não. Jazz e blues.

Uma tremenda mistureira, na verdade. Meus amigos músicos iam ficar envergonhados. Ou eu ia, se eles vissem. Botei de tudo um pouco: dois Johns (Coltrane e Pizzarelli), Lightnin’ Hopkins, Nina Simone, dois Johnsons (Robert e Blind Willie)... Enfim, como eu já disse, tremenda mistureira.

De alguns, gravei álbuns inteiros. De outros, pincei umas coisas aqui, outras ali... Fiquei chateado porque não achei a minha predileta da Nina Simone. Que, já aviso, é polêmica: as pessoas me perguntam de qual a música dela mais gosto e já me preparo para ouvir montes depois de responder. Enfim, é Strange Fruit. Eu sei. Eu sei! Ela não é a cantora “oficial” dessa. Mas, com todo o respeito devido à dona Billie, tia Nina mata a pau.

Tem músicas que a gente precisa sentir entrar pelos ouvidos, descer pela garganta, alojar-se no estômago, destroçar a alma com os dentes e sair pelo meio do peito como se fosse o pior pesadelo do Giger. Essa é uma. E Billie Holiday, por mais Billie Holiday que seja, para mim não chega aos pés da Nina quando a idéia é não deixar pedra sobre pedra.

Outra música que para mim também é assim, na verdade é bem diferente: doce, calma, suave... te deixa num clima gostoso, e vêm os dois últimos versos e te pegam desprevenido e te dão uma voadora no meio do peito. Uma voadora sutil, vá lá, mas ainda assim... É I’m Alright Now, que tenho gravada pelo Pizzarelli. Fala do cara voltando à ativa depois de ser largado pela mulher e das coisas que tem feito e de como está bem melhor agora... e termina: “Of course I cry myself to sleep most every night / But with that slight exception I’m alright”.

Olha lá eu de novo. Tentando escrever algo gostoso para me despedir do ano que vai de um jeito legal e chutando o pau da barraca. Juro que eu estou de bom humor. Juro!

29 de dez de 2008

Esclarecimento

Oquêi, vamos deixar claro. O que eu escrevo aqui não é sobre você. Nem sobre você. E muito menos sobre você. É ficção, sacou? Fi-qui-são!!! É como aqueles meus contos em primeira pessoa em que o eu-lírico é um sociopata completo que sai de madrugada para matar gente por esporte no vale do Anhangabaú. Ou você pensa que são relatos verídicos? Ou como os contos em primeira pessoa sobre suicídio. Em primeiro lugar, o que você achava? Que eles foram psicografados? Onde já se viu conto em primeira pessoa sobre suicídio que deu certo ter qualquer coisa a ver com a realidade? Em segundo, não tenho a menor vocação para suicida: se sorrio pouco é porque sou contido, mesmo, não triste. E a roupa preta nada mais é que uma opção estética.

Eu não escrevo pra lavar a alma, nem pra deixar ninguém com sentimento de culpa, nem pra encher a bola de quem quer que seja, nem pra jogar confete, nem pra botar a boca no mundo. Eu escrevo porque gosto. É hobby. Eu gosto de contar história. E se eu conto em primeira pessoa, é porque acho bacaninha. Não significa absolutamente nada.

Eu não escrevo para você, sobre você, pensando em você, ou tentando te esquecer, ou tentando não te esquecer. Eu não escrevo por nada disso. Se, por acaso, você achar que alguma coisa aqui é, sim, sobre você, lembra daquela notinha que aparece no começo ou no fim dos filmes: qualquer semelhança com pessoas, blá, blá, blá, é mera coincidência.

É que nem aquela música da Carly Simon. “You’re so vain you probably think this song is about you... la-la-la-la...” Será que não é por aí? (olha só o headbanger aqui, balançando a cabeça em sinal de reprovação e fazendo ‘tsc, tsc’ pra si mesmo por sequer mencionar o nome da Carly Simon, que dizer saber a letra!)

Ficou claro, moça? Deu pra entender? Eu escrevo ficção porque gosto de escrever. E porque não pega bem ficar muito tempo sem colocar coisa nova no blog, então invento historinhas e deixo aqui para as pessoas lerem. Não escrevo sobre você, nem você e nem (fala sério, né?) você aí.

A não ser, claro, quando eu escrevo, mesmo, sobre você. Mas se eu disser o quê é o quê, perde um pouco da graça, né?

28 de dez de 2008

Procura-se

Essa época do ano, entre Natal e meados de janeiro, costuma ser minha chance de descansar um pouco. Vida de tradutor autônomo é complicada, a gente tem medo de recusar um job e depois ficar sem grana. E acaba entupindo a agenda para além da conta e com uma carga de trabalho sobre-humana.

Mas parece que o mundo dá uma parada nesses quinze, vinte, dias e é aí que eu também paro um pouco pra respirar. Só que esse ano, sabe-se lá por quê, entrou um monte de trabalho justamente agora: tenho cinco artigos para verter para o inglês, sendo dois de economia, dois de gestão de TI e um de sociologia, e seis capítulos de um livro de finanças para traduzir pro português. Isso fora um livro de crônicas que está ameaçando entrar.

Em tempos de crise financeira mundial, não dá pra reclamar. Afinal, entrar uma grana inesperada num momento de pânico generalizado e pouco antes das facadas de IPTU, IPVA e IR é sempre bom. A não ser por uma coisa: não estou conseguindo trabalhar. Acho que por dois motivos.

Um é essa porcaria de blog. Fazia uns quinze anos que não escrevia e, agora que abri as comportas, não consigo parar mais. Começo a verter alguma coisa sobre arquitetura informacional, verticalização corporativa, acumulação primitiva de capital, ou seja lá o que for e, dez minutos depois, percebo que estou com os olhos desfocados e perdidos no espaço, lembrando de uma frase que podia estar um pouco melhor em uma crônica que escrevi ontem, ou numa frase descolada para a que vou escrever amanhã. Daí, logo em seguida, Ctrl+F4, Ctrl+O e pronto, já esqueci do artigo acadêmico e estou às voltas com alguma bobagem minha não remunerada.

O outro é que estou de saco cheio de ficar solteiro. Isso pode não parecer um problema tão grave assim. Eu até que sou razoavelmente simpático, razoavelmente divertido, razoavelmente apresentável e, para quem, se ficar na ponta dos pés, já vê os 40 despontando no horizonte, tenho razoavelmente bastante cabelo e razoavelmente pouca barriga. Enfim, não deveria ser tão difícil achar alguém que se interessasse. E não é mesmo. O problema sou eu.

Ou melhor, os padrões de exigência ridículos que eu estabeleço. Também pudera, depois das últimas três, com quem passei os últimos dez anos e lá vai pedrada. Entre a morena meio gótica, meio pin-up que cozinha melhor que eu e tem um coração do tamanho do universo, a hamadríade ruiva saída de uma tela do Waterhouse e que cita Becquer e Darío de cabeça e a loira escultural com jeitão de supermodel e QI de cientista nuclear, fica complicado achar alguém à altura. As três tão incríveis que, terminados os relacionamentos, são minhas melhores amigas.

Eu bem que tento ser menos crítico, saio, sento sozinho no balcão de algum bar, logo mais não mais sozinho, começo a bater papo, prometendo em diálogo interno tentar ser tolerante, paciente. Mas há limites! Logo a criatura solta um absurdo qualquer que nem a norma popular suporta, diz que adora pagode, tenta me convencer a ir a uma festa imperdível na Vila Olímpia, conta que adora ler, principalmente Bruna Surfistinha e Paulo Coelho. Ou então tem o pescoço e os dedos curtos demais, ou os pulsos e tornozelos grossos demais, ou os olhos separados demais, ou a testa baixa demais. E daí me dá um ataque súbito e incontrolável de urticária, digo que vou tomar um ar e sumo, vou para outro bar, outro balcão. E acontece tudo de novo, com pequenas variações sobre o tema. Até que uma bela hora desisto, volto para casa sozinho e que se dane.

27 de dez de 2008

Melhor Assim

Até que assim está bom. No começo foi difícil, claro, nada mais natural. Era estranho acordar e não ter ninguém do lado. Depois de um tempo a gente acostuma a dormir sempre com a mesma pessoa e aquele vazio do outro lado da cama é esquisito. Mas, do mesmo jeito, depois de um tempo a gente também acostuma a não ter por perto alguém que se mexe enquanto dorme. Daí dá um pouco de solidão, mas aparece outra pessoa maravilhosa, a gente se sente em casa e fica tudo melhor. Mas depois a outra pessoa maravilhosa também some e as coisas ficam dificeis de novo. E, de novo, a gente acostuma.

Até que está bom assim, sozinho por um tempo. Melhor, até. Eu nunca devia ter me envolvido de novo tão rápido. O certo seria ter dado um tempo para engolir direito as coisas, depois digerir e, finalmente, expelir. Agora tenho que fazer isso duas vezes ao mesmo tempo, mas tudo bem. Nada de impossível. Vai aí um pouco de malabarismo emocional, mas dá para levar.

E tem um monte de vantagens: se eu saio e dá vontade de voltar cedo, tudo bem. Se dá vontade de virar a noite, depende só de mim. Se quero acordar cedo, ou acordar tarde, mesma coisa. Se eu, que não tenho rotina nem horário, quiser sair numa terça-feira e ficar na rua até o sol raiar, sem crise, porque ninguém tem que bater cartão no dia seguinte.

Se quero acordar às oito no domingão, tomar café da manhã com calma, ler o jornal e ir a pé ver um concerto no MCB, ótimo, não tem ninguém para consultar, chamar para ir junto e correr o risco de ouvir um sonoro 'não', afinal onde já se viu levantar antes das três da tarde em pleno domingo?

Se dá vontade de fazer experiências culinárias, não preciso pensar no paladar de alguém que não eu mesmo: faço o que me dá na telha e geralmente dá certo. E, se não der, azar. Faço um sanduíche e pronto.

Quero passar na locadora e pegar um filme nacional, um cabeça e um de ação bem idiota, sem nenhuma comédia romântica? Sem problemas. Deu na telha passar o dia lendo alguma coisa que já li trocentas vezes? Sem problemas. Estou a fim de viajar? É só enfiar uma mochila no carro e pé na estrada. Não estou com a mínima de viajar? Perfeito. Fico por aqui. Sem crises, críticas, birras, ou bicos.

Aliás, está ótimo assim. Relacionamento é um saco. Muito melhor não ter que prestar contas a ninguém a não ser a mim mesmo, não dever lealdade a ninguém a não ser eu mesmo, não ter que afagar o ego de ninguém, não ter que gastar neurônios pensando em coisas românticas para fazer, não ter que comprar um vinho que não seria a minha primeira opção porque a minha primeira opção seria a última da outra pessoa e vice-versa e por isso chegamos a um acordo e bebemos um vinho que não é o predileto de ninguém. Não ter que lembrar aniversários e outras datas e ficar com cara de idiota quando esqueço e ficar com cara de idiota frustrado quando lembro, mas a outra pessoa não.

Melhor, mesmo, ficar sozinho por um tempo até digerir tudo e não sobrar mais nada que possa causar um revertério súbito. O melhor é passar um bom tempo sozinho, curtir a solteirice, ver todas as exposições que quiser, ir a tudo que é vernissage, escutar Slipknot, ou Orishas, ou Bizet, ou música de gaita-de-foles sem reclamações, trabalhar de madrugada e dormir de dia se for o caso. Se eu falar em fazer mais uma tatuagem, não vai ter ninguém perguntando se vai ser o nome dela.

Muito melhor desse jeito. Ainda mais agora, que estou acostumado a acordar sozinho e não sinto mais falta de ter alguém por perto. A gente se acostuma com tudo e, mais cedo ou mais tarde, vou ter é que acostumar de novo a dormir acompanhado. De preferência mais tarde, não mais cedo. Afinal, assim está ótimo, o mundo é meu e de mais ninguém, eu sou meu e de mais ninguém.

E aí, tô conseguindo enganar alguém?

25 de dez de 2008

Diário de Bordo do Christmas Pudding

21 de dezembro

Resolvi fazer um Christmas pudding. Para quem não conhece (que deve ser quase todo o mundo), é um bolo natalino inglês feito principalmente de ameixas secas e cozido no vapor em vez de assado. Minha avó sempre fazia. Pra ser sincero, nunca gostei muito. Mas este ano deu saudade e fiquei com vontade de comer.

13h00
Não tenho a receita e acho que ninguém guardou a da minha avó. Fiz uma busca na rede, achei algumas e tentei juntar tudo em algo que fosse viável na minha cozinha minúscula.

14h00
Umas dez receitas depois, estou com dificuldades para reunir numa só: parece não haver consenso formado a respeito do que vai ou não num Christmas pudding, a não ser pelas ameixas secas e algo chamado suet que, sinto informar, não só é banha, mas é a banha que envolve os rins dos bois. Detesto banha e, além disso, achar suet por estas paragens ia ser impossível. Vou substituir por manteiga.

14:30
Consegui reduzir a lista de ingredientes em potencial a algo civilizado:

200 g de farinha;
250 g da açúcar mascavo;
100 g de ameixas secas;
150 g de frutas secas sortidas;
100 g de amêndoas;
100 g de manteiga;
150 ml de cerveja stout;
1 ovo;
canela;
noz moscada.

Também preciso de um pudding cloth. Achar por aqui? Sem chance. Vai um pano de saco fervido, mesmo.

15:30
Voltei do supermercado. Multidão e filas! Por que sempre deixo minhas compras de Natal para a última hora? Pelo que li, o Christmas pudding é tradicionalmente preparado com meses de antecedência. Vai ver que na Idade Média eles já tinham problemas com o afã consumista de fim de ano e que é daí que vem a tradição. Dá pra imaginar o cozinheiro do castelo falando com seus botões: "Quem, vos pergunto, submeter-se-ia às multidões do mercado? Não eu, faço votos! Hei de evitar as gentes, cozendo a iguaria meses antes dos festejos."

No mercado só tinha açúcar mascavo em sacos de cinco quilos. Vou substituir por demerara.

Esqueci de lavar a louça depois do café da manhã. Não dá nem pra pensar em cozinhar antes de arrumar a cozinha. Droga. Não estava nem um pouco no clima de arrumar cozinha.

15h:45
Beleza, pia vazia; todos os 45 centímetros de balcão limpos. Mãos à obra!

16:10
Quebrei o processador tentando moer as frutas secas e as amêndoas. O coitadinho não foi projetado pra trabalho tão pesado assim. Vou ter que recorrer ao pilão.

17h00
Ai meu braço!!! Não o sinto mais, a não ser como uma vaga lembrança latejante perto do ombro. Mas consegui transformar as frutas secas e amêndoas em uma massa homogênea. Sinto-me o rei da cocada preta.

17:30
Terminei de misturar todos os ingredientes. Não foi fácil porque 1) Não tenho uma tigela grande o bastante e precisei usar uma caçarola de ferro fundido que pesa uma tonelada e 2) como já vimos, meu braço foi pro saco.

Coloquei a massa numa tigela, cobri com um pano e deixei para crescer.

22 de dezembro

9h00
Ataque de pânico! Deixei a massa para crescer durante a noite, mas não aconteceu nada! Saco! Só de pensar em fazer tudo de novo dá vontade de jogar a tigela pela janela. Sabe-se lá porque cargas d'água, massa nunca cresce quando eu faço. Aliás, não cresce se eu estiver por perto. Daí lembrei que minha avó que fazia o pudding todos os anos tinha o mesmo problema e comecei a achar que ia dar tudo certo. Depois de alguns minutos na Internet, descobri que massa de Christmas pudding não cresce, mesmo. Então beleza.

9h20
Tirei o pano de saco do varal e forrei a cuscuzeira. Untei papel de padeiro e fiz a segunda camada de forro. Peguei a tigela com a massa e uma colher de pau para encher a cuscuzeira. Descobri que a massa do pudding é absurdamente grudenta. Peguei mais uma colher para raspar a massa da primeira e jogar na cuscuzeira.

9h30
Dez minutos e cinco colheres de pau depois, terminei de transferir a massa. Selei com as bordas do papel untado, encaixei a tampa da cuscuzeira, fechei o pano por cima de tudo e amarrei. Enchi a panela com água, encaixei a cuscuzeira e acendi o fogo.

10h15
Me caiu uma ficha: esqueci de misturar canela e noz moscada na massa. Corri para a cozinha e tirei a cuscuzeira da panela. Da próxima vez, preciso lembrar que a cuscuzeira fica quente pra caramba e que é melhor usar luvas. Tirei a tampa da cuscuzeira, polvilhei com as especiarias, percebi que tinha esquecido de levantar o papel de padeiro. Levantei o papel de padeiro, polvilhei de novo, fechei tudo e rezei para dar certo.
Dei uma olhada dentro da panela, coloquei um pouco mais de água e encaixei a cuscuzeira o lugar

10h20
Tinha esquecido de acender o fogo de novo. Me xinguei umas duas ou três vezes, desci as escadas e acendi.

11h00, 12h00 , 13h00 e 14h00
Descidas para completar a água da panela. Lembrei de usar luvas quase todas as vezes.

15h00
Abri a trouxa para dar uma olhada. Acho que está seco demais. Considerei várias possibilidades, inclusive suicídio. Lembrei que tinha uma garrafa de cerveja dunkel na geladeira e resolvi improvisar. Reguei com a cerveja, fechei e devolvi ao fogo.

16h00 e 17h00
Completei a água e reguei com cerveja. Contra todas as expectativas, esse negócio está com cara e cheiro de Christmas pudding.

18h00
Desliguei o fogo e tirei a cuscuzeira. Deixei para esfriar antes de refrigerar.

24 de dezembro

16h00
cheguei cedo na casa dos meus pais para ajudar a preparar a ceia. Trouxe o pudding, presentes e uma entradinha que fiz (lascas de pepino com patê de ervas feito em casa, salmão defumado, framboesa e semente de papoula). Guardei a comida na geladeira, arrumei os presentes embaixo da árvore, ajudei meu pai a encher coolers de gelo, cerveja, refrigerante e água com gás. Rachei uma cerveja com ele.

18h00
Minha mãe chegou de sua tradicional expedição pré-natalina de última hora. Fui encarregado de arrumar a mesa enquanto ela fazia o já lendário bolo de nozes da família.

18h30
Cortei a superfície do tender em losangos. Minha irmã mais nova chegou com saladas e se apossou da cozinha. O elemento central da salada dela? Lascas de pepino com patê de ervas feito em casa. Vai entender.

19h30
Montei um prato de carpaccio de salmão e decorei com pitayas. Depois de arrumar dois quilos de carpaccio numa travessa, resignei-me ao fato de que minhas mãos cheirarão eternamente a peixe.

20h00
Os convidados começaram a chegar. Coloquei o pudding no vapor enquanto explicava a idéia para a Diva, cozinheira da minha mãe. Tenho certeza de que a ouvi dizer entre dentes que os ingleses são todos loucos.

21h00
Fiz uma guarnição de pêssegos em calda com redução de caldo de carne para o tender. Fui chamado de louco de novo, desta vez pela cozinheira e pela copeira . Verifiquei a água da panela e acrescentei mais um pouco, por via das dúvidas. O pudding parece estar em ordem.

21h30-23:30
Ceia. Trinchei o tender enquanto meu pai trinchava um peru colossal. Me entupi de peru, tender e salmão. Por que perder tempo com as coisas que não são proteína animal?

Meia-noite
Sobremesas. Fui para a cozinha colocar o pudding na travessa. Aqueci um copo cheio de conhaque para flambar. Pedi para um primo me ajudar a tirar da cuscuzeira. Ele segurou a travessa de ponta-cabeça sobre a coisa toda enquanto eu tirava da panela e virava. Coloquei a travessa com a cuscuzeira invertida no balcão e removi a cuscuzeira e o pano. Tirei o papel de padeiro e... desastre! A base do pudding tinha crescido um pouco e ficado convexa. Solto do papel o bolo assentou nas bordas e rachou ao meio. Da próxima vez, preciso inventar um jeito de evitar isso. Reguei com o conhaque sob o olhar vigilante da Diva, que parece ter concluído que sim, eu sou mesmo doido varrido. Levei o pudding devidamente entravessado e alcoolizado para a mesa e toquei fogo no bicho, para deleite dos convivas ali reunidos . E quer saber? Fora a rachadura, ficou perfeito!

20 de dez de 2008

Xenofrutófobo

Aquela velha estória do “em se plantando tudo dá”. Ótimo: aqui cresce amora, blueberry, caqui, damasco ... deve ter alguma com “e”, mas estou com preguiça e não importa. Gosto de todas. Não tenho o menor problema com qualquer uma delas.

Acho que plantar frutas “importadas” deve ter sido uma das grandes prévias da globalização. Nada contra. Quem, afinal, não curte grapefruit no café-da-manhã, uma bela travessa de cerejas no Natal, manga para a sobremesa? Suco de cranberry, geléia de framboesa, pêssego em calda?

Aposto que tem um monte de gente que não me conhece, vai ler isso e pensar: putz... outro chato nacionalista, retrógrado, xenófobo. Outro monte de gente que não me conhece vai dizer para os próprios botões que é isso mesmo, que tá certo, que as pessoas são alienadas, por aí afora. Pra ser sincero, não estou muito aí.

Mas tem hora que assusta um pouco. Outro dia, me deu vontade de geléia de jabuticaba para passar na torrada. Coisa simples, dessas que tinha tanto em casa da gente quando era criança que nem dava bola. Vasculhei todos os supermercados da região (e não são poucos) e não achei. Daí parti para os empórios chiques. Nada. Tentei as vendinhas de esquina. E nada. Aparentemente ninguém mais faz geléia de jabuticaba (mas de lichia, morango, abacaxi, cereja negra, kiwi e mirtilo, essas tem). No fim das contas, comprei um quilo de jabuticabas frescas no hortifruti e fiz a geléia eu mesmo. Se alguém quiser, deu um monte, comi um tanto, enjoei e ainda tem um vidro quase cheio.

Outro caso é o da pitanga. Minha fruta predileta, diga-se. Ainda bem que tem um pé na casa dos meus pais, senão tava ferrado. Nunca vi para vender no mercado, na feira ou em qualquer lugar. Até uns anos atrás ainda tinha um suco concentrado de pitanga que enganava bem. Mas faz séculos que não vejo mais. Por outro lado, outro dia achei uns drops de pitanga até que razoáveis. Feitos no Japão.

De vez em quando vejo em algum lugar para vender uns cajás mirradinhos, umas guabirobas raquíticas. Talvez nem tudo esteja perdido. Mas fico preocupado.

17 de dez de 2008

Insight

Hoje tive um desses. Um desses do título.

Quem desencadeou foi minha irmã, enquanto esperávamos uma mesa no restaurante. Falávamos de um assunto que normalmente prefiro evitar, a não ser quando escrevo para mim mesmo. Escrevo para mim mesmo, mas acabo postando em algum fórum ou blog. Agora é aqui no macaco narcisista. Escrevo para mim, mas depois vou e penduro na frente de quem bem quiser ler, vai entender. Enfim, o assunto: vida pessoal. Vida amorosa, mais especificamente.

Uma vez disse para um grupo de amigos muito especiais que sou "a borderline pathological people pleaser". Sou mesmo. Gosto de agradar as pessoas. É algo que faço com a maior naturalidade. Não é esforço algum.

Isso com as pessoas em geral. Imagine como é com as mulheres com quem me envolvo. Não faço por obrigação, ou por medo de perder a pessoa, ou por que quero algo em troca. Faço por que me dá vontade.

Mas voltando ao insight. Falávamos de um ex-relacionamento meu recente quando ela soltou a bomba: "Você começa a namorar mulheres fortes e independentes...". E eu interrompi: "Só gosto de mulheres fortes e independentes." "Deixa eu terminar." "Tá, sorry." "Você começa a namorar mulheres fortes e independentes e elas viram umas tontas."

Eu já tinha uma resposta engatilhada, mas engasguei. Acho que vi com o canto do olho o insight se aproximando e me distraí. Ela aproveitou a pausa (que veio acompanhada, imagino, de um olhar meu completamente idiota) e disparou: "Acho que você cuida tanto que elas pensam que é isso que você quer."

Em primeiro lugar, ela tem toda a razão. É a pura verdade. Começo a sair com alguém que me chamou a atenção por que parece ser à prova de bala e, quando vou ver, estou saindo com uma mulher infantilizada. Teve uma ou outra exceção, mas a regra é essa. E o tontão aqui nunca tinha ligado as coisas!!!

Cara, será que é tão difícil assim? Não dá para aceitar ser cuidada sem virar criança? E mais: não dá para aceitar ser cuidada e não pensar que a via é de mão única?

Insight é um saco: a gente percebe o problema, mas isso não quer dizer que veja a solução. O que é que eu vou fazer com isso? Deixar de cuidar de quem eu gosto? Fora de cogitação: nem saberia como, fora que acho que não ia ver graça alguma em estar com alguém sem cuidar, mimar, fazer graça, surpresa, tratar como se fosse a coisa mais preciosa do universo (que, diga-se de passagem, é mesmo, pelo menos enquanto durar o relacionamento). Enfim, não vai ser por aí. Quem sabe eu penduro um cartaz no pescoço: "Olha, moça, é o seguinte: eu vou te mimar como você nunca foi mimada. Por favor, não entenda isso como convite para perder uns quinze anos de idade mental."

Sei lá. Preciso pensar melhor nisso tudo.

16 de dez de 2008

Suspensão de Descrença

Olho pela janela e não vejo nada além das copas das árvores e do céu.

É mera ilusão, claro: moro em plena bagunça, a dois quarteirões do cruzamento da Faria Lima com a Juscelino. Há o barulho constante, quase sub-sônico, dos ônibus, que parece penetrar pelas orelhas e ricochetear sem parar dentro do crânio; às vezes, a buzina em que se apóia um motorista mais mal-educado do que a média, como se pudesse forçar o trânsito a andar no grito; mais freqüentemente do que a gente gostaria, entram em cena sirenes das ambulâncias, dos carros de polícia e dos caminhões de bombeiros. Isso sem falar no alinhamento quase perfeito da janela do apartamento com a pista de Congonhas.

Não foi fácil acostumar. Nasci e fui criado no Morumbi, onde tem mais árvores e passarinhos do que motocicletas e caminhões; e onde o canto dos passarinhos às vezes chega a incomodar.

Quando a ex-patroa e eu resolvemos juntar os trapinhos, o critério principal era ficarmos a no máximo três quadras do banco onde ela trabalhava, o que nos deixou bem no meio do bombado Itaim-Bibi. Depois de muito procurar, acabamos encontrando um loftzinho duplex num prédio bacana que tinha tudo o que a gente queria.

Acostumei logo com a nova rotina e me maravilhava com como era tudo tão fácil. Antes de morar aqui, tinha que pegar o carro para tudo: a coisa mais perto da casa dos meus pais era um hipermercado que ficava a mais ou menos um quilômetro — e era um quilômetro bem íngreme. Agora, aqui, tudo fica a um quarteirão ou dois. Praticamente não uso mais o carro. Estou pensando seriamente em me livrar dele.

Chopp? Sushi? Parrilla? Comida veggie? Italiana? Brasileira? Os melhores burgers da cidade? Tudo em cinco minutos a pé. Comprar roupa (saco...)? Montes de possibilidades. Cortar o cabelo (saco, saco!)? Não preciso nem mudar de quarteirão ou calçada. Agora abriu uma ótima loja de vinhos e azeites literalmente do lado do meu prédio. E por aí vai... Quando cheguei aqui, pensei que tinha achado o Paraíso — ou a coisa mais próxima do Paraíso que há por estas paragens. Aos sábados e domingos às vezes acordo tarde e vou até um dos muitos cafés da região; depois volto para casa, cada vez por um caminho diferente, descobrindo lojinhas charmosas que nunca tinha visto antes.

Mas de vez em quando isso tudo me sufoca e sinto falta da calma e da paz de onde cresci. É aí que entra a melhor característica do apê: do meu lugar predileto na sala, olho pela janela e não vejo nada além das copas das árvores e do céu. E finjo que a barulheira da metrópole não existe e que, por um instante somos só nós: eu, as árvores e o céu.

15 de dez de 2008

Descartável

Sabe o que me incomoda profundamente? A mentalidade do descartável. Não só embalagens e outros quetais. Isso também, mas, muito mais, tratar como descartável aquilo que não deveria ser.

Livros descartáveis. De que adianta saber que o brasileiro está lendo mais hoje do que lia, se o que lê não vale o papel em que está impresso? De que adianta, se a maior parte do que se escreve é lixo de auto-ajuda? De que adianta? Filmes descartáveis, arte descartável.

Música descartável. Não paro de me surpreender com as porcarias que as pessoas tocam e ouvem. (Não que não haja coisas boas nas mais diferentes vertentes musicais, até, reluto em admitir, naquilo que os cariocas pensam ser funk ― pobre James Brown, que deve estar rolando no túmulo mais que barril na ladeira). Aliás, nesse campo, não só descartável, mas também reciclável. A menos que realmente se pare para prestar atenção, o que não recomendo, as “musicas” dentro de cada estilo parecem ser todas iguais. Quer ver? Pegue pedacinhos de papel e escreva neles “bunda” (ou qualquer sinônimo), “morro”, “justiça”, “AK47” e “polícia”, acrescente alguns adjetivos, verbos, advérbios e preposições, embaralhe e arrume na sua frente. Pronto. Você acabou de escrever uma letra de, bem, vá lá que seja, “funk”. Mas cuidado: é possível que haja outra idêntica e que você seja processado por plágio, se tiver sorte, ou acabe no microondas se o funqueiro estiver de mau humor.

Mas me peguei com a reciclagem, que pode ser tema para outra oportunidade. Voltando ao descartável: moda descartável. Por alguma razão que até hoje não entendi muito bem, acabei me envolvendo profissionalmente com moda e modismos, entre outra coisas tantas. Não canso de me divertir com as mudanças sazonais nessa área das realizações humanas. Eu, que nunca fui de levar moda a sério ou dar a mínima atenção ao que se espera que eu use, fico de queixo caído com as inumeráveis variações sobre o tema do que vestir, calçar, de como cortar o cabelo e tal. E toda hora muda. O que 15 dias atrás era o sonho erótico dos fashionistas está hoje tão obsoleto quanto as anáguas de vovó!

Mas entrei nesse assunto de descartável por causa de uma implicância muito específica: relacionamentos descartáveis. Vá lá, reconheço, eu sou um trouxa de um romântico incorrigível. E sou o primeiro a admitir que minha visão do assunto é um pouco enviesada. Mas depois de representar o cara que se ferra naquela música Criminal da Fiona Apple (duas vezes em três meses, mas deixa pra lá), digo sem a menor vergonha: "peralá!". Então é assim? Carinha se joga de cabeça no relacionamento e, ao primeiro sinal de problemas vocês pulam fora? Palhaçada.

Quer saber? Quem sabe eu experimento esse negócio de descartar. Só para ver como é.