25 de dez de 2008

Diário de Bordo do Christmas Pudding

21 de dezembro

Resolvi fazer um Christmas pudding. Para quem não conhece (que deve ser quase todo o mundo), é um bolo natalino inglês feito principalmente de ameixas secas e cozido no vapor em vez de assado. Minha avó sempre fazia. Pra ser sincero, nunca gostei muito. Mas este ano deu saudade e fiquei com vontade de comer.

13h00
Não tenho a receita e acho que ninguém guardou a da minha avó. Fiz uma busca na rede, achei algumas e tentei juntar tudo em algo que fosse viável na minha cozinha minúscula.

14h00
Umas dez receitas depois, estou com dificuldades para reunir numa só: parece não haver consenso formado a respeito do que vai ou não num Christmas pudding, a não ser pelas ameixas secas e algo chamado suet que, sinto informar, não só é banha, mas é a banha que envolve os rins dos bois. Detesto banha e, além disso, achar suet por estas paragens ia ser impossível. Vou substituir por manteiga.

14:30
Consegui reduzir a lista de ingredientes em potencial a algo civilizado:

200 g de farinha;
250 g da açúcar mascavo;
100 g de ameixas secas;
150 g de frutas secas sortidas;
100 g de amêndoas;
100 g de manteiga;
150 ml de cerveja stout;
1 ovo;
canela;
noz moscada.

Também preciso de um pudding cloth. Achar por aqui? Sem chance. Vai um pano de saco fervido, mesmo.

15:30
Voltei do supermercado. Multidão e filas! Por que sempre deixo minhas compras de Natal para a última hora? Pelo que li, o Christmas pudding é tradicionalmente preparado com meses de antecedência. Vai ver que na Idade Média eles já tinham problemas com o afã consumista de fim de ano e que é daí que vem a tradição. Dá pra imaginar o cozinheiro do castelo falando com seus botões: "Quem, vos pergunto, submeter-se-ia às multidões do mercado? Não eu, faço votos! Hei de evitar as gentes, cozendo a iguaria meses antes dos festejos."

No mercado só tinha açúcar mascavo em sacos de cinco quilos. Vou substituir por demerara.

Esqueci de lavar a louça depois do café da manhã. Não dá nem pra pensar em cozinhar antes de arrumar a cozinha. Droga. Não estava nem um pouco no clima de arrumar cozinha.

15h:45
Beleza, pia vazia; todos os 45 centímetros de balcão limpos. Mãos à obra!

16:10
Quebrei o processador tentando moer as frutas secas e as amêndoas. O coitadinho não foi projetado pra trabalho tão pesado assim. Vou ter que recorrer ao pilão.

17h00
Ai meu braço!!! Não o sinto mais, a não ser como uma vaga lembrança latejante perto do ombro. Mas consegui transformar as frutas secas e amêndoas em uma massa homogênea. Sinto-me o rei da cocada preta.

17:30
Terminei de misturar todos os ingredientes. Não foi fácil porque 1) Não tenho uma tigela grande o bastante e precisei usar uma caçarola de ferro fundido que pesa uma tonelada e 2) como já vimos, meu braço foi pro saco.

Coloquei a massa numa tigela, cobri com um pano e deixei para crescer.

22 de dezembro

9h00
Ataque de pânico! Deixei a massa para crescer durante a noite, mas não aconteceu nada! Saco! Só de pensar em fazer tudo de novo dá vontade de jogar a tigela pela janela. Sabe-se lá porque cargas d'água, massa nunca cresce quando eu faço. Aliás, não cresce se eu estiver por perto. Daí lembrei que minha avó que fazia o pudding todos os anos tinha o mesmo problema e comecei a achar que ia dar tudo certo. Depois de alguns minutos na Internet, descobri que massa de Christmas pudding não cresce, mesmo. Então beleza.

9h20
Tirei o pano de saco do varal e forrei a cuscuzeira. Untei papel de padeiro e fiz a segunda camada de forro. Peguei a tigela com a massa e uma colher de pau para encher a cuscuzeira. Descobri que a massa do pudding é absurdamente grudenta. Peguei mais uma colher para raspar a massa da primeira e jogar na cuscuzeira.

9h30
Dez minutos e cinco colheres de pau depois, terminei de transferir a massa. Selei com as bordas do papel untado, encaixei a tampa da cuscuzeira, fechei o pano por cima de tudo e amarrei. Enchi a panela com água, encaixei a cuscuzeira e acendi o fogo.

10h15
Me caiu uma ficha: esqueci de misturar canela e noz moscada na massa. Corri para a cozinha e tirei a cuscuzeira da panela. Da próxima vez, preciso lembrar que a cuscuzeira fica quente pra caramba e que é melhor usar luvas. Tirei a tampa da cuscuzeira, polvilhei com as especiarias, percebi que tinha esquecido de levantar o papel de padeiro. Levantei o papel de padeiro, polvilhei de novo, fechei tudo e rezei para dar certo.
Dei uma olhada dentro da panela, coloquei um pouco mais de água e encaixei a cuscuzeira o lugar

10h20
Tinha esquecido de acender o fogo de novo. Me xinguei umas duas ou três vezes, desci as escadas e acendi.

11h00, 12h00 , 13h00 e 14h00
Descidas para completar a água da panela. Lembrei de usar luvas quase todas as vezes.

15h00
Abri a trouxa para dar uma olhada. Acho que está seco demais. Considerei várias possibilidades, inclusive suicídio. Lembrei que tinha uma garrafa de cerveja dunkel na geladeira e resolvi improvisar. Reguei com a cerveja, fechei e devolvi ao fogo.

16h00 e 17h00
Completei a água e reguei com cerveja. Contra todas as expectativas, esse negócio está com cara e cheiro de Christmas pudding.

18h00
Desliguei o fogo e tirei a cuscuzeira. Deixei para esfriar antes de refrigerar.

24 de dezembro

16h00
cheguei cedo na casa dos meus pais para ajudar a preparar a ceia. Trouxe o pudding, presentes e uma entradinha que fiz (lascas de pepino com patê de ervas feito em casa, salmão defumado, framboesa e semente de papoula). Guardei a comida na geladeira, arrumei os presentes embaixo da árvore, ajudei meu pai a encher coolers de gelo, cerveja, refrigerante e água com gás. Rachei uma cerveja com ele.

18h00
Minha mãe chegou de sua tradicional expedição pré-natalina de última hora. Fui encarregado de arrumar a mesa enquanto ela fazia o já lendário bolo de nozes da família.

18h30
Cortei a superfície do tender em losangos. Minha irmã mais nova chegou com saladas e se apossou da cozinha. O elemento central da salada dela? Lascas de pepino com patê de ervas feito em casa. Vai entender.

19h30
Montei um prato de carpaccio de salmão e decorei com pitayas. Depois de arrumar dois quilos de carpaccio numa travessa, resignei-me ao fato de que minhas mãos cheirarão eternamente a peixe.

20h00
Os convidados começaram a chegar. Coloquei o pudding no vapor enquanto explicava a idéia para a Diva, cozinheira da minha mãe. Tenho certeza de que a ouvi dizer entre dentes que os ingleses são todos loucos.

21h00
Fiz uma guarnição de pêssegos em calda com redução de caldo de carne para o tender. Fui chamado de louco de novo, desta vez pela cozinheira e pela copeira . Verifiquei a água da panela e acrescentei mais um pouco, por via das dúvidas. O pudding parece estar em ordem.

21h30-23:30
Ceia. Trinchei o tender enquanto meu pai trinchava um peru colossal. Me entupi de peru, tender e salmão. Por que perder tempo com as coisas que não são proteína animal?

Meia-noite
Sobremesas. Fui para a cozinha colocar o pudding na travessa. Aqueci um copo cheio de conhaque para flambar. Pedi para um primo me ajudar a tirar da cuscuzeira. Ele segurou a travessa de ponta-cabeça sobre a coisa toda enquanto eu tirava da panela e virava. Coloquei a travessa com a cuscuzeira invertida no balcão e removi a cuscuzeira e o pano. Tirei o papel de padeiro e... desastre! A base do pudding tinha crescido um pouco e ficado convexa. Solto do papel o bolo assentou nas bordas e rachou ao meio. Da próxima vez, preciso inventar um jeito de evitar isso. Reguei com o conhaque sob o olhar vigilante da Diva, que parece ter concluído que sim, eu sou mesmo doido varrido. Levei o pudding devidamente entravessado e alcoolizado para a mesa e toquei fogo no bicho, para deleite dos convivas ali reunidos . E quer saber? Fora a rachadura, ficou perfeito!

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