15 de dez de 2008

Descartável

Sabe o que me incomoda profundamente? A mentalidade do descartável. Não só embalagens e outros quetais. Isso também, mas, muito mais, tratar como descartável aquilo que não deveria ser.

Livros descartáveis. De que adianta saber que o brasileiro está lendo mais hoje do que lia, se o que lê não vale o papel em que está impresso? De que adianta, se a maior parte do que se escreve é lixo de auto-ajuda? De que adianta? Filmes descartáveis, arte descartável.

Música descartável. Não paro de me surpreender com as porcarias que as pessoas tocam e ouvem. (Não que não haja coisas boas nas mais diferentes vertentes musicais, até, reluto em admitir, naquilo que os cariocas pensam ser funk ― pobre James Brown, que deve estar rolando no túmulo mais que barril na ladeira). Aliás, nesse campo, não só descartável, mas também reciclável. A menos que realmente se pare para prestar atenção, o que não recomendo, as “musicas” dentro de cada estilo parecem ser todas iguais. Quer ver? Pegue pedacinhos de papel e escreva neles “bunda” (ou qualquer sinônimo), “morro”, “justiça”, “AK47” e “polícia”, acrescente alguns adjetivos, verbos, advérbios e preposições, embaralhe e arrume na sua frente. Pronto. Você acabou de escrever uma letra de, bem, vá lá que seja, “funk”. Mas cuidado: é possível que haja outra idêntica e que você seja processado por plágio, se tiver sorte, ou acabe no microondas se o funqueiro estiver de mau humor.

Mas me peguei com a reciclagem, que pode ser tema para outra oportunidade. Voltando ao descartável: moda descartável. Por alguma razão que até hoje não entendi muito bem, acabei me envolvendo profissionalmente com moda e modismos, entre outra coisas tantas. Não canso de me divertir com as mudanças sazonais nessa área das realizações humanas. Eu, que nunca fui de levar moda a sério ou dar a mínima atenção ao que se espera que eu use, fico de queixo caído com as inumeráveis variações sobre o tema do que vestir, calçar, de como cortar o cabelo e tal. E toda hora muda. O que 15 dias atrás era o sonho erótico dos fashionistas está hoje tão obsoleto quanto as anáguas de vovó!

Mas entrei nesse assunto de descartável por causa de uma implicância muito específica: relacionamentos descartáveis. Vá lá, reconheço, eu sou um trouxa de um romântico incorrigível. E sou o primeiro a admitir que minha visão do assunto é um pouco enviesada. Mas depois de representar o cara que se ferra naquela música Criminal da Fiona Apple (duas vezes em três meses, mas deixa pra lá), digo sem a menor vergonha: "peralá!". Então é assim? Carinha se joga de cabeça no relacionamento e, ao primeiro sinal de problemas vocês pulam fora? Palhaçada.

Quer saber? Quem sabe eu experimento esse negócio de descartar. Só para ver como é.

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