Alice, Alice,
Eu bem que te disse.
“Não prova do bolo, não segue o coelho,
Nem tenta passar pr'outro lado do espelho”.
Te perdeste de vez no caminho que trilhas
De um lado pro outro em país de armadilhas.
Alice, Alice,
Eu bem que te disse.
Por que não escutas quem bem te aconselha?
Alice, Alice,
Por que não me ouviste?
É falsa a lagarta e o gato, matreiro.
E mentem a lebre e esse tal chapeleiro
(Mas podes contar com a enxurrada de choro
E há um risco real de perder a cabeça).
Alice, Alice,
Por que não me ouviste?
O mundo que sonhas só em sonhos existe
01/02/2010
29/01/2010
Um meio-termo sensato
Resolvi, afinal, o suposto dilema
Que enfrenta o poeta entre a espada e a pena.
Corto cabeças com uma num dia
E no outro, com a outra, escrevo elegias.
Que enfrenta o poeta entre a espada e a pena.
Corto cabeças com uma num dia
E no outro, com a outra, escrevo elegias.
19/01/2010
Lugar Comum
Vou usar e abusar do chavão:
Fazer todo um poema de rimas
Desgastadas, cansadas, cretinas.
Vou rimar “coração” e “paixão”.
Vou usar só palavras banais,
Desfiar rimas burras e pobres
Até que nenhuma mais sobre
No meu velho e surrado Houaiss.
Vou fazer construções qualquer-nota,
E usar, sem ter medo nenhum,
Um milhão de lugares comuns
E as hipérboles mais idiotas.
Não faz mal se for tudo clichê,
Pois no fim resta salvo o poema
Se tiver algo raro por tema
E esse algo, mulher, for você.
Fazer todo um poema de rimas
Desgastadas, cansadas, cretinas.
Vou rimar “coração” e “paixão”.
Vou usar só palavras banais,
Desfiar rimas burras e pobres
Até que nenhuma mais sobre
No meu velho e surrado Houaiss.
Vou fazer construções qualquer-nota,
E usar, sem ter medo nenhum,
Um milhão de lugares comuns
E as hipérboles mais idiotas.
Não faz mal se for tudo clichê,
Pois no fim resta salvo o poema
Se tiver algo raro por tema
E esse algo, mulher, for você.
18/01/2010
Em Ponta de Faca
A vida é um afogamento.
É um desaparecer gradual e lento.
É remar contra a maré,
Velejar contra o vento.
É um lutar sem fim até
O inevitável naufragar
No mar sem fundo do tempo.
É um desaparecer gradual e lento.
É remar contra a maré,
Velejar contra o vento.
É um lutar sem fim até
O inevitável naufragar
No mar sem fundo do tempo.
Tradução de um poema de W.B.Yeats
MEN IMPROVE WITH THE YEARSxxxxxxxxxxSÃO MELHORES OS VELHOS
I am worn out with dreams;xxxxxxxxxxDe tanto sonhar, canso;
A weather-worn, marble tritonxxxxxxxTritão de mármore gasto
Among the streams;xxxxxxxxxxxxxxxxxxEntre os remansos;
And all day long I lookxxxxxxxxxxxxxE o dia todo miro,
Upon this lady's beautyxxxxxxxxxxxxxSenhora, tua beleza
As though I had found in a bookxxxxxTal qual retratada num livro
A pictured beauty,xxxxxxxxxxxxxxxxxxA tua beleza,
Pleased to have filled the eyesxxxxxGrato pelos ouvidos
Or the discerning ears,xxxxxxxxxxxxxE pelos olhos cheios,
Delighted to be but wise,xxxxxxxxxxxPor ser sábio agradecido,
For men improve with the years;xxxxxPois são melhores os velhos;
And yet, and yet,xxxxxxxxxxxxxxxxxxxMas, não obstante,
Is this my dream, or the truth?xxxxxSerá isto um sonho, ou não?
O would that we had metxxxxxxxxxxxxxAh, ter-te visto antes,
When I had my burning youth!xxxxxxxxEnquanto jovem varão!
But I grow old among dreams,xxxxxxxxMas sonho e passam os anos,
A weather-worn, marble tritonxxxxxxxTritão de mármore gasto
Among the streams.xxxxxxxxxxxxxxxxxxEntre os remansos
I am worn out with dreams;xxxxxxxxxxDe tanto sonhar, canso;
A weather-worn, marble tritonxxxxxxxTritão de mármore gasto
Among the streams;xxxxxxxxxxxxxxxxxxEntre os remansos;
And all day long I lookxxxxxxxxxxxxxE o dia todo miro,
Upon this lady's beautyxxxxxxxxxxxxxSenhora, tua beleza
As though I had found in a bookxxxxxTal qual retratada num livro
A pictured beauty,xxxxxxxxxxxxxxxxxxA tua beleza,
Pleased to have filled the eyesxxxxxGrato pelos ouvidos
Or the discerning ears,xxxxxxxxxxxxxE pelos olhos cheios,
Delighted to be but wise,xxxxxxxxxxxPor ser sábio agradecido,
For men improve with the years;xxxxxPois são melhores os velhos;
And yet, and yet,xxxxxxxxxxxxxxxxxxxMas, não obstante,
Is this my dream, or the truth?xxxxxSerá isto um sonho, ou não?
O would that we had metxxxxxxxxxxxxxAh, ter-te visto antes,
When I had my burning youth!xxxxxxxxEnquanto jovem varão!
But I grow old among dreams,xxxxxxxxMas sonho e passam os anos,
A weather-worn, marble tritonxxxxxxxTritão de mármore gasto
Among the streams.xxxxxxxxxxxxxxxxxxEntre os remansos
11/01/2010
Niilismo de botequim
Não é qu’eu ‘tava no barzinho
bebendo quieto, sossegado,
quando, pra minha surpresa,
sem sequer pedir licença,
chega Deus e senta à mesa?
E, não bastasse o descaso
com a minha descrença,
‘inda matou minha cerveja.
E eu, “Porra, Eheieh, que saco!
Isso é coisa que se faça?
Quer beber, vá lá que seja,
mas pelo menos pede outra taça!”
Ele deu um sorriso maroto,
roubou meu bolinho de bacalhau,
levantou e disse, “Sê besta, garoto.
Vai esquentar a cabeça com isto?
Foi só um golinho e, afinal,
que importa? Eu não existo!”
bebendo quieto, sossegado,
quando, pra minha surpresa,
sem sequer pedir licença,
chega Deus e senta à mesa?
E, não bastasse o descaso
com a minha descrença,
‘inda matou minha cerveja.
E eu, “Porra, Eheieh, que saco!
Isso é coisa que se faça?
Quer beber, vá lá que seja,
mas pelo menos pede outra taça!”
Ele deu um sorriso maroto,
roubou meu bolinho de bacalhau,
levantou e disse, “Sê besta, garoto.
Vai esquentar a cabeça com isto?
Foi só um golinho e, afinal,
que importa? Eu não existo!”
08/01/2010
Marcas
Trago como um distintivo
estas linhas sobre as costas
meio retas, meio tortas,
gravadas em sangue vivo.
Se entrecruzam cicatrizes
sobre meu dorso marcado
de alto a baixo, lado a lado.
"Mas que absurdo!", dizes.
Explico o que aconteceu:
Mulheres têm longas unhas
E algumas usam as suas
como ferro de marcar: "Este é meu".
Se me importo? Ora, não!
Reconheço, claro, a posse
e mesmo que assim não fosse,
são um selo de aprovação.
São testemunha silenciosa
de noites de pouco dormir
que deixa como souvenir
minha amada quando goza.
estas linhas sobre as costas
meio retas, meio tortas,
gravadas em sangue vivo.
Se entrecruzam cicatrizes
sobre meu dorso marcado
de alto a baixo, lado a lado.
"Mas que absurdo!", dizes.
Explico o que aconteceu:
Mulheres têm longas unhas
E algumas usam as suas
como ferro de marcar: "Este é meu".
Se me importo? Ora, não!
Reconheço, claro, a posse
e mesmo que assim não fosse,
são um selo de aprovação.
São testemunha silenciosa
de noites de pouco dormir
que deixa como souvenir
minha amada quando goza.
16/12/2009
Reconquista
Letárgicos, envenenados,
os rios de São Paulo em coma profundo.
Cercados, concreto por todos os lados,
depositários do esgoto do mundo.
Mas chove e os pais da cidade se vingam.
Atacam a prole que se fez inimiga:
retomam as várzeas de Piratininga.
os rios de São Paulo em coma profundo.
Cercados, concreto por todos os lados,
depositários do esgoto do mundo.
Mas chove e os pais da cidade se vingam.
Atacam a prole que se fez inimiga:
retomam as várzeas de Piratininga.
08/12/2009
Sarau no Skuantus Pub
Esse domingo, 06/12, Lúcia Gönczy e eu promovemos nosso primeiro sarau, com apoio do Skuantus Pub (Av. Moaci, 550, Moema) e da banda Olam Ein Sof (http://www.olameinsof.com/).
Sendo eu quem sou, sem saber marquei para o dia (e hora...) da final do futebol. Quem manda não acompanhar esporte? Mas ainda assim apareceu bastante gente: é bom saber que num fim de tarde de domingo, com sei lá eu quantos times grandes com chances de conquistar o campeonato, trinta ou quarenta pessoas saem de casa para ouvir música e um bando de malucos que insistem em escrever poemas.
A galera do Olam (que, para quem não conhece, toca um repertório medieval, renascentista e celta, além de composições próprias) fez duas entradas de meia hora, com direito até a versão acústica de uma música de sua outra banda, o Arum. Na boa, black metal tocado como dueto de violão ficou muito bacana! Valeu, Fernanda, Marcelo e David!
Além deles, Olga, que veio do Ceará especialmente para o sarau, tocou e cantou. E apresentaram-se os poetas Cesar Veneziani,Lúcia Gönczy, Ingrid, Ivone fs (que declamou poemas seus e um de Betty Vidigal), Mel, Marcia Matoso, Paulo Gomes, Regina Z., Renatinha, Rita Medusa e este vosso humilde criado. Desculpem se tiver esquecido alguém; qq coisa, me avisem que incluo os nomes no post.
Nosso "muito obrigado" a Arimondi, Aurora e toda a equipe do Skuantus, que abriu a casa para nós; ao Olam Ein Sof; a todos que se apresentaram; e, principalmente, a quem se dispôs a sair de casa para apoiar nossa experiência. Vamos repetir a dose em fevereiro. Enquanto isso, fiquem com as fotos do domingo passado:
Abraço,
Allan
Sendo eu quem sou, sem saber marquei para o dia (e hora...) da final do futebol. Quem manda não acompanhar esporte? Mas ainda assim apareceu bastante gente: é bom saber que num fim de tarde de domingo, com sei lá eu quantos times grandes com chances de conquistar o campeonato, trinta ou quarenta pessoas saem de casa para ouvir música e um bando de malucos que insistem em escrever poemas.
A galera do Olam (que, para quem não conhece, toca um repertório medieval, renascentista e celta, além de composições próprias) fez duas entradas de meia hora, com direito até a versão acústica de uma música de sua outra banda, o Arum. Na boa, black metal tocado como dueto de violão ficou muito bacana! Valeu, Fernanda, Marcelo e David!
Além deles, Olga, que veio do Ceará especialmente para o sarau, tocou e cantou. E apresentaram-se os poetas Cesar Veneziani,Lúcia Gönczy, Ingrid, Ivone fs (que declamou poemas seus e um de Betty Vidigal), Mel, Marcia Matoso, Paulo Gomes, Regina Z., Renatinha, Rita Medusa e este vosso humilde criado. Desculpem se tiver esquecido alguém; qq coisa, me avisem que incluo os nomes no post.
Nosso "muito obrigado" a Arimondi, Aurora e toda a equipe do Skuantus, que abriu a casa para nós; ao Olam Ein Sof; a todos que se apresentaram; e, principalmente, a quem se dispôs a sair de casa para apoiar nossa experiência. Vamos repetir a dose em fevereiro. Enquanto isso, fiquem com as fotos do domingo passado:
Abraço,
Allan
26/11/2009
Parto
Não me peça calma,
nem tamanho apreço
pelo comedimento.
Só quero agora
rasgar a alma,
me virar do avesso,
te tirar de dentro
e ir embora.
nem tamanho apreço
pelo comedimento.
Só quero agora
rasgar a alma,
me virar do avesso,
te tirar de dentro
e ir embora.
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