28 de jan de 2009

Rituais de Acasalamento

Muitas vezes, quando chega o fim de tarde de domingo, vou a um bar que fica aqui na esquina, sento embaixo de uma jabuticabeira e leio. Meus amigos sabem que é lá que costumo estar e às vezes aparecem. Às vezes não. Desta vez estávamos só Jane e eu.

Não é exatamente o tipo de lugar que costumo freqüentar. À uma da manhã, em plena quarta-feira, sempre tem uma fila de gente produzida em série esperando para entrar. E eu não pego nem fila, nem gente produzida em série. E ponto final.

Mas o lugar é uma boa solução para mim nas tardes de fim-de-semana. Fica a uns 50 metros de casa, tem um chopp bem tirado, uma boa seleção de bebidas, serviço bom, comida boa (e as árvores). Não é barato, mas, como economizo o táxi, ficam elas por elas. Além disso, tem uma parte ao ar livre e dá pra fazer fotossíntese.

Enfim, lá estava eu às cinco e meia da tarde, de posse de Sense and Sensibility. Confesso, envergonhado, meio inglês que sou, que nunca li Jane Austen. E confesso, ainda mais envergonhado, que não estou gostando muito. Ainda que a estória seja boa e o comentário social, devidamente mordaz, a linguagem é datada demais. Mas estou decidido: vou terminar de ler esse negócio.

Sentei no meu lugar predileto, pedi um chopp e pastel de siri com pimenta rosa e me enfiei nas façanhas da família Dashwood. O bar começou a encher e, como o livro não prendia a minha atenção e não apareceu ninguém pra jogar conversa fora, comecei a observar as pessoas.

As mulheres, quase todas, ostentavam um ou mais tons de loiro engarrafado, com as raízes mais escuras quase sempre bem visíveis; a maioria dos homens era gorda e flácida, ou garotões bombados de esteróide. Ou, em alguns casos, encontravam-se naquela transição esquisita entre um estado e outro. Marmanjo de bermuda e boné com a aba virada para trás. Garotas mal saídas da adolescência de pretinhos básicos minúsculos e cobertas de bijoux – em pleno dia! Coisas que meu senso estético simplesmente não consegue processar.

Observar os rituais de acasalamento dos humanos é engraçado. Tinha dois caras em pé junto ao bar, urubuzando o lugar. Sempre que alguma mulher olhava mais ou menos para o lado deles, imediata e quase instintivamente encolhiam suas respeitáveis barrigas de cerveja. Também tinha três meninas obviamente siliconadas e botocadas (aos vinte-e-poucos anos!) que foram abordadas algumas vezes. Imediatamente estufavam seus peitos hiperinflados, jogavam o cabelo amarelo de lado e olhavam, não muito discretamente, para o relógio e os sapatos do pretendente em potencial.

Quero crer que a Srta. Austen teria tido toda a cena por deveras interessante.

24 de jan de 2009

Fim de Noite

Fim de noite. Ele abre a porta. Ela entra em casa. Segundos depois, ele também entra. Ela vai direto para a geladeira, pega uma garrafa de Coca-cola de dois litros, quase no fim, e bebe o restinho direto do gargalo. Ele vai ao banheiro, faz xixi, lavas as mãos e vai para o quarto. Enquanto ele tira a roupa com cheiro de cigarro, é ela quem vai ao banheiro e faz xixi. Ele veste o pijama enquanto ela lava as mãos.

Ele liga a TV, começa a zapear pelos trocentos mil canais em busca de algo que mate a insônia, de preferência, ou, se não der, pelo menos mate o sono. Ela liga o computador, lê emails, abre o Orkut, entra invisível no MSN para ver se tem alguém com quem valha a pena conversar sobre o que quer que seja. Mas é claro que às cinco da matina só estão online os losers completos. “Eu inclusive”, pensa.

“Droga de festa. Gente mais chata”, diz ele para os botões do controle remoto. “Festa mais chata. Droga de DJ”, ela pensa. Morto de tédio, mas ainda sem conseguir dormir, ele resmunga, “Que se dane” e serve-se de um uísque. Ela desliga o computador, pega a Veja de duas semanas atrás, vai para o quarto e acende um cigarro que fuma enquanto lê o Mainardi pela décima vez. Agora é ele quem liga o computador, abre um arquivo de trabalho e tenta dar uma adiantada nas coisas da semana que vem. Claro que morto de cansado – e não exatamente sóbrio – tudo o que fizer vai ter que fazer de novo outro dia. Mas pelo menos ocupa o tempo. Ela joga a revista no chão, liga a TV do quarto e assiste a um capítulo de Allie McBeal que já viu tantas vezes que sabe os diálogos de cor. Mas ocupa o tempo, pelo menos. E preenche o silêncio.

Ele desiste de estragar trabalho, fecha o Word e abre o Orkut, lê emails. Vai ter outra festa amanhã. As mesmas pessoas, o mesmo tipo de lugar. Gosta das pessoas e gosta do lugar. Mas já está meio saturado tanto de umas quanto do outro. Melhor ficar em casa, ler alguma coisa. Mas, no fim, provavelmente vai acabar indo, sim. E morrendo de tédio. Ela, que já sabia da festa, tenta resolver se está ou não com vontade de ir. Passam os créditos finais de Miss McBeal e ela dorme embalada pelo sotaque horrendo do Dr. Phil. A essas alturas o sol já ameaça raiar e ele desiste de dormir na hora em que jornal é delicadamente arremessado pelo zelador contra a porta do apartamento.

Eles são perfeitos um para o outro. Pena que, mesmo morando na mesma cidade, no mesmo quarteirão, nunca vão se conhecer, nunca vão se apaixonar, nunca vão ter três filhos lindos e quatro maravilhosos netos. Não vão montar casa juntos, nem viajar juntos para Barcelona, nem ver juntos o pôr-do-sol em Santiago, nem envelhecer juntos, nem esquecer juntos das coisas que viram e fizeram juntos.

20 de jan de 2009

Interpretação de Texto

“E aí, terminou de ler?”

“Faz uns dias.”

“Então conta.”

“É mais ou menos assim. É meio confuso, então você vai precisar ter paciência, tá? Mas é assim, ou, pelo menos, foi o que eu entendi. Tem um cara, o Riobaldo, que está contando uma história pra alguém que nunca responde. Esse Riobaldo era parte de uma trupe de jagunços que viviam para cima e para baixo na região da Caxemira. Só que além de serem jagunços, eles também faziam espetáculos circenses.”

“Sei...”

“Pois então. Daí esse tal de Riobaldo conhece um outro jagunço que se chama Diadorim e, tipo, meio que rola um clima entre os dois, sei lá... Eles fogem pra tentar se casar, mas tem um cara que muda de nome no meio algumas vezes, tem hora que é Bebêlo, tem hora que é Bulbul, e vai lá e busca eles de volta e eles acabam se casando ali mesmo, na vila de Pachigam. E eles ficam juntos um tempo, mas a situação vai ficando complicada por causa da guerra com o Paquistão. E um dia, numa apresentação de dança, o Diadorim conhece o embaixador dos Estados Unidos e foge com ele. E o Riobaldo se junta aos militantes islâmicos e jura que vai matar o tal do embaixador.”

“Continua...”

“Então, daí, não entendi muito bem como, o Diadorim fica grávido e obeso e tem uma filha. A mulher de verdade do embaixador pega a menina pra criar e some com ela pra Inglaterra, onde a menina um dia cai, torce o pé e conhece um tal de Willoughby, mas o cara é meio pilantra e ela acaba ficando com um outro, um sargento, ou tenente, ou coisa parecida, não lembro o nome.”

“Seria Coronel Brandon?”

“É! Isso! Nossa, como você sabe das coisas!”

“Não importa, continua.”

“Tá. Daí a menina sai da Inglaterra porque o império está em decadência e vai parar nos Estados Unidos no final do século vinte. Sei lá, tem uns pulos no tempo que eu não entendi muito bem, mas enfim, Estados Unidos, fim do século vinte. Aí o Riobaldo, que virou motorista do pai dela, o tal do embaixador, dá uma facada nele. E a menina fica meio louca e vai fazer um documentário na Caxemira. Enquanto isso, o Riobaldo acaba sendo preso.”

“Ah, é?”

“É. Daí ela volta da Índia e começa a escrever cartas pra ele na cadeia e ele fica meio louco, sei lá. Um dia tem uma fuga da prisão e ele os caras levam ele junto, mas no fim só ele escapa porque sabe voar. E voa até a casa da menina e tenta matar ela, mas no fim é ela quem acaba matando ele. E acho que é isso, é meio confuso, mas é mais ou menos isso mesmo.”

“...”

“E aí, o que você achou?”

“Quantas vezes eu preciso te falar para ler um livro só de cada vez?”

8 de jan de 2009

Porcos

Tem uns caras por aí (e não são poucos) que me dão vergonha de pertencer ao mesmo gênero. Às vezes parece que quase todos os homens que conheço são uns putos de uns misóginos, assumidos ou não. Deve ser por isso, aliás, que tenho poucos amigos. Uns dois ou três. Todos os outros são conhecidos com quem simpatizo, na melhor das hipóteses, ou que execro, na pior. E mesmo esses com quem simpatizo às vezes soltam umas que não dá para engolir.

Me revolta, enoja, ver que um monte de carinha por aí fala, fala, fala, bota banca de moderninho, mas, na verdade, acha mesmo que lugar de mulher é em casa. Que mulher não é nada além de uma máquina de fazer sexo, fazer filho, fazer comida, fazer faxina. E nem sei se esses são os piores. Porque também tem aqueles que acham que mulher tem que trabalhar, sim, dividir as contas da casa. E, nas horas vagas, ser máquina de fazer sexo, fazer filhos, fazer comida e fazer faxina. Normalmente são os mesmos imbecis que ligam pra mamãe quando têm uma dorzinha de garganta. E soltam, depois de jantar e nem fazer menção de lavar a louça, "por que você não pede para a minha mãe te dar a receita do tempero dela?". Palhaços.

Os mesmos proto-humanos que ficam nervosinhos se a mulher tem amigos no trabalho, mas vão pro happy-hour e não param de olhar para a bunda da garçonete, o decote da menina 20 anos mais nova na mesa da frente, as costas da hostess do bar. E trocam com os amigos olhares cúmplices de pseudo-sátiro, como quem quer dar a entender: "se quisesse, comia muito essa aí". E falam dos puteiros que freqüentam (comentário impertinente: vai dar uma trabalheira parar de usar trema), como se pagar uma mulher por sexo fosse prova de macheza.

Os mesmos babacas, porcos, limitados, que parecem acreditar que o ápice da realização masculina é não ter qualquer interesse ou assunto que não seja futebol ou mulheres de quem jamais irão chegar perto. Que agem como se fosse direito inalienável de uma classe superior olhar para qualquer membro do sexo oposto como se fosse um pedaço de carne. Que reclamam que a namorada está gorda, quando eles mesmos são flácidos, moles, ensebados por dentro e por fora e no cérebro; que reclamam que ela não está depilada, quando eles mesmos fazem a barba para ir ao trabalho (provavelmente esperando que a gostosinha da recepção lance olhos em sua direção), mas, em casa, no fim-de-semana, dão folga para a espuma e a gilete; que reclamam que a casa está bagunçada quando eles mesmos são incapazes de pendurar uma toalha, ou limpar a pia depois de fazer a barba (admitindo, claro, que seja dia de ver a menina da recepção).

Então chega de enrolação e vamos lá: minhas caras, por favor, aceitem as minhas mais sinceras desculpas em nome de todos nós por essas bestas-feras com quem compartilho mictórios e o "sexo: M" dos formulários. Não desistam da gente: tem alguns que se salvam e, quem sabe, com o tempo, a categoria como um todo não melhora um pouco?

(mas tem um negócio: vocês precisam ter uma conversa séria com as suas amigas que toleram esse tipo de coisa porque enquanto elas deixarem, eles não vão tomar jeito)

7 de jan de 2009

Anticlímax

Acabei de perceber algo que é no mínimo preocupante. Acho que estou quebrado por dentro. Pulou uma engrenagem, queimou uma válvula, fritou um chip, sei lá. Mas tem algo de muito errado. E acho que não estou nem aí.

Deve ter acontecido aos poucos, bem devagar, porque eu teria percebido antes se tivesse sido de uma vez. E acho que foi nos últimos dias, porque ainda me lembro de quando as coisas estavam funcionando direito e não faz tanto tempo assim.

Não sei nem dizer muito bem o que é, mas que tem alguma coisa errada, isso tem. Pra quem me conhece, mas não muito bem, vai parecer que só agora eu percebi uma coisa que todo o mundo já sabia faz tempo. Mas quem me conhece de verdade vai entender que não é bem assim.

Quem não me conhece tão bem pensa que eu sou frio, distante, que nada me incomoda. Mas tem umas poucas e escolhidas pessoas que sabem a verdade e a verdade é que eu acho, tonto, que preciso sempre me mostrar forte, inatingível, feito de pedra, porque é a mim que as pessoas recorrem quando têm problemas e eu não posso parecer fraco nunca. Porque se elas precisarem de ajuda e eu parecer fraco, pode ser que elas fiquem sem graça de pedir e não digam nada, e vão embora e tentem se virar sozinhas e quebrem a cara. E isso eu não posso aceitar. Então visto a máscara e pronto, que venha o mundo.

Mas eu sentia, sim, as coisas, mesmo que não demonstrasse. Eu sentia, sim, dor. Eu sentia, sim, tristeza. Mas tudo bem, porque eu sabia me virar e sempre acabava dando um jeito.

Um dia, acordei e quando abri os olhos o mundo tinha virado um pesadelo. E eu queria acordar, mas já estava acordado. E acordava de novo no dia seguinte e, antes de abrir os olhos, pensava, que bom, o pesadelo acabou, mas o pesadelo era de verdade. E no dia seguinte. E no dia seguinte. E no seguinte, no seguinte, no seguinte. E a dor no peito que eu pedi a todos os deuses do mundo que fosse um enfarte fulminante. E a dor de cabeça que eu quis mais de uma vez que fosse, por favor, um belo AVC. E a máscara no mesmo lugar de sempre, costas eretas, peito cheio, olhar plácido, cabeça erguida, pilar do mundo, rochedo na beira do mar, farol na beira do rochedo, ponto constante e estável de referência para todo o mundo que estava no mesmo pesadelo.

E o pesadelo crescendo dentro de mim, fechado lá dentro, estagnado, uma poça estagnada, um lago estagnado, um oceano estagnado, mar morto. Mas tudo bem, desde que ninguém percebesse e que eu continuasse cuidando das pessoas e aliviando, na medida do possível, a dor que elas sentiam.

E depois de meses e meses de pesadelo, a minha própria dor foi diminuindo. Até que parei de sentir e pensei que pronto, tinha acabado, agora era começar de novo, do zero, lançar fundações, erguer paredes. E continuei a tocar a vida.

E de repente acontece o impensável, o indizível, o intolerável, o inadmissível, o que seria para deixar qualquer um em estado de catatonia, para deflagrar um desses casos americanos em que o cara sai por aí matando meio shopping-center, para o vizinho ligar pra polícia e a polícia ligar pro Pinel. Para o porteiro do prédio se benzer e pensar em chamar o pastor da igreja dele porque alguém ali deve estar possuído pelo demo de tanto que urra e bate a cabeça na parede e rasga a própria cara com ralador de coco. Era para ser qualquer uma dessas coisas, ou todas, ou qualquer combinação delas. E não foi nenhuma. Era para ser a dor de todas as dores, a mãe de todas as torturas, o bisavô de todos os suplícios. E não foi nada.

Não senti nada.

E agora caiu a ficha: era para ter sentido e sentido muito. Era pra ter sido a enxurrada que chega na lagoa estagnada e estoura as comportas e arranca a barragem e derrama todo o lodo acumulado por tanto tempo e arranca árvores pela raiz e causa desabamento de encostas e deixa meio mundo debaixo metros de lama podre.

Mas não senti nada.

Parece que bebi um litro de xilocaína, parece que enrolei o corpo em cem camadas de plástico bolha, e que a dor que deveria vir de dentro não faz nem cócegas, e que a dor que deveria vir de fora mal chega como o eco de um baque distante e seco e fraco. Parece que o lodo secou e virou um lago de sal duro como aqueles que tem no deserto. Parece que a barragem está vazia e que do rio que um dia passou por ali só sobrou o leito vazio.

Não sinto mais nada. E o pior é que acho que não estou nem aí.

6 de jan de 2009

Fleuma

Tem horas que dá vontade de ser outro, alguém que não carrega a maldição dessa pose de lorde inglês de araque, alguém que não pensa duas vezes antes de mandar pra putaquepariu quem lhe encha o saco, em vez de sorrir condescendente, erguer uma sobrancelha e seguir em frente, diplomata de nascença, aturando praticamente impassível a boçalidade alheia.

Alguém que, se vai visitar um conhecido (porque amigos são muito poucos) e, lá chegando, ao ver que está o tal conhecido com toda a família no sofá Casas Bahia da sala assistindo algum desses intermináveis programas de TV dominicais, em vez de arrumar um cantinho para sentar e fingir que também acha aquilo tudo muito divertido, edificante, o ápice do entretenimento sadio, manda todos se foderem, especialmente a cretina da irmã do cara, que insiste em exibir dobras de banha por baixo de blusinhas acima do umbigo e em demonstrar sua insondável estupidez, espirrando gargalhadas de hiena fanha toda vez que algum oráculo dominical solta seu bordão.

Ah!, ser alguém que, ao ver as enormes filas de imbecis produzidos em série na entrada da baladinha da moda da semana -- esperando, bons carneirinhos que são, nesta versão bizarra do beija-mão de nossos dias, a benção do cão-de-guarda à porta – não resiste ao ímpeto de dar um empurrão no último da fila para ver todos caindo como se fossem pedras de dominó. E que quando, às trẽs-e-meia da manhã ouve, saindo de um Chevette '83 parado na porta do prédio, música cáuntri no volume máximo que suportam as caixas de som rachadas do dito, não se resigna a enterrar a cabeça no travesseiro e fingir que não está ouvindo e esperar o barulho ir embora, mas desce as escadas e bota uma bomba no carro, livrando a cidade de mais uma lata velha que provavelmente nem deveria estar circulando, por falta de documentação e equipamentos obrigatórios de segurança.

Mas daí respiro fundo, paro para pensar, e me lembro de que, afinal de contas, tenho uma reputação a preservar. Além do quê, é divertido ver como as pessoas reagem ao cabeludo, tatuado e vestido de preto, que se comporta como se estivesse, sei lá, na corte da Rainha Vitória e cumprimenta as pessoas com uma leve mesura. E tomo fôlego, encho os pulmões e proclamo: “Humanos, bah!”

4 de jan de 2009

Letrinhas

Não se entendem, nem nunca se entenderão. Pronto, é isso e acabou. Para que ficar esquentando a cabeça com algo que não tem solução? A diferença nem é tão grande, só uma letrinha de nada. Mas faz toda a diferença do mundo. As XXs e os XYs simplesmente não falam a mesma língua. Podem até usar as mesmas palavras, as mesmas construções, a mesma estrutura. Mas é só casca. Se arrancar, fica o miolo incompatível. Um tentar entender o que o outro diz e quer é tentar rodar software de Mac no PC. Dá pau.

Os XYs acham, no fundo, que todas as XXs são loucas, até as que à primeira vista parecem mais normaizinhas. As XXs acham que, no fundo, todos os XYs são uns imbecis, até os que têm jeito de ser mais espertinhos. O mais provável é que nenhuma das duas coisas seja verdade.

Por outro lado, vai ver que, para os XYs, o mundo que as XXs enxergam seja mesmo tão diferente que, do ponto de vista deles, elas são, sim, loucas varridas de amarrar e que eles estão certos até certo ponto. E que, para as XXs, o mundo como os XYs o vêem seja tão estranho que elas não erram ao dizer que eles são uns cretinos. Quem sabe os dois não estão certos, cada um de seu jeito meio errado?

Não tenha dúvida: se algum XY te disser que sabe, sim, como funciona a cabeça de uma XX, pode escrever que é mentira ou ilusão. E se alguma XX jurar que entende os XYs, não dê bola: o mais provável é que, no fundo, nem ela mesma acredite nisso.

Se as coisas fossem um pouco diferentes, até que não seria um grande problema. Só que as XXs não conseguem viver sem os XYs e vice-versa (lógico, tô generalizando, claro que tem exceção, mas vocês entenderam o que eu quero dizer). E ficam os dois, cada um do seu lado, ou do lado um do outro (mas ainda do seu próprio lado), tentando se fazer entender e fingindo entender o que o outro diz, faz, quer, sente. As XXs e os XYs precisam uns dos outros, nem que seja só pra fazer mais XXs e XYs. E mesmo que não seja exatamente para isso, todo o processo de treinar para fazer, convenhamos, é bem divertido.

Talvez, daqui a alguns anos, algum geneticista brilhante consiga inventar um terceiro tipo, digamos um XYZ, ou coisa parecida, vai saber, que entenda os dois outros e sirva de intérprete. Até lá, ficamos nessa de tentar entender e não entender patavina e de treinar para fazer mais gente que não se entende. Pensando bem, ao menos nisso a gente até que se entende.