6 de jan de 2009

Fleuma

Tem horas que dá vontade de ser outro, alguém que não carrega a maldição dessa pose de lorde inglês de araque, alguém que não pensa duas vezes antes de mandar pra putaquepariu quem lhe encha o saco, em vez de sorrir condescendente, erguer uma sobrancelha e seguir em frente, diplomata de nascença, aturando praticamente impassível a boçalidade alheia.

Alguém que, se vai visitar um conhecido (porque amigos são muito poucos) e, lá chegando, ao ver que está o tal conhecido com toda a família no sofá Casas Bahia da sala assistindo algum desses intermináveis programas de TV dominicais, em vez de arrumar um cantinho para sentar e fingir que também acha aquilo tudo muito divertido, edificante, o ápice do entretenimento sadio, manda todos se foderem, especialmente a cretina da irmã do cara, que insiste em exibir dobras de banha por baixo de blusinhas acima do umbigo e em demonstrar sua insondável estupidez, espirrando gargalhadas de hiena fanha toda vez que algum oráculo dominical solta seu bordão.

Ah!, ser alguém que, ao ver as enormes filas de imbecis produzidos em série na entrada da baladinha da moda da semana -- esperando, bons carneirinhos que são, nesta versão bizarra do beija-mão de nossos dias, a benção do cão-de-guarda à porta – não resiste ao ímpeto de dar um empurrão no último da fila para ver todos caindo como se fossem pedras de dominó. E que quando, às trẽs-e-meia da manhã ouve, saindo de um Chevette '83 parado na porta do prédio, música cáuntri no volume máximo que suportam as caixas de som rachadas do dito, não se resigna a enterrar a cabeça no travesseiro e fingir que não está ouvindo e esperar o barulho ir embora, mas desce as escadas e bota uma bomba no carro, livrando a cidade de mais uma lata velha que provavelmente nem deveria estar circulando, por falta de documentação e equipamentos obrigatórios de segurança.

Mas daí respiro fundo, paro para pensar, e me lembro de que, afinal de contas, tenho uma reputação a preservar. Além do quê, é divertido ver como as pessoas reagem ao cabeludo, tatuado e vestido de preto, que se comporta como se estivesse, sei lá, na corte da Rainha Vitória e cumprimenta as pessoas com uma leve mesura. E tomo fôlego, encho os pulmões e proclamo: “Humanos, bah!”

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