21 de set de 2009

Caco

Miguel escolheu a faculdade por eliminação: vinha de uma dessas famílias tradicionais cujos bons filhos estudam medicina, direito, administração, engenharia, economia. Não gostava de matemática e biológicas nunca tinham sido seu forte. Sobrou o direito. Quando passou no vestibular, não tinha nem pensado em ser qualquer outra coisa além de advogado cível. Direito tributário, empresarial. Alguma coisa assim.

Apaixonou-se pelo direito penal no meio do segundo ano. Arrumou estágio em uma ONG de assessoria jurídica. Trabalho voluntário, no fundo: gastava mais em transporte e alimentação do que ganhava. Mas ficou fascinado com o mundo antes desconhecido de quem tinha nascido ferrado. Começou a ver as coisas de um jeito diferente, como as viam os ladrões de galinha que ajudou a livrar de penas pesadas e descabidas. Decidiu que o que queria era impedir, como pudesse, que fosse para a cadeia quem não precisasse mesmo estar lá.

Para desespero dos pais, resolveu ser delegado. Formado, prestou concurso e passou na primeira tentativa. Foi mandado para um distritozinho do interior (onde, ironicamente, chegou a investigar casos reais de furto de galinhas) e ficou conhecido como alguém que não tinha medo de mandar passear os grandes da região quando se tratava de quem nada ou pouco devesse à Justiça. Criou fama de incorruptível. Chamou a atenção dos movimentos sociais da região. Acabou aparecendo numa grande revista semanal como exemplo da boa polícia.

***

Acordou de madrugada com o barulho do toque do celular. Era um amigo da família, pediatra dos seus sobrinhos, que por acaso tinha sítio na região

“Mike, preciso da sua ajuda.”

“Que aconteceu?” Não era raro parentes e amigos lhe pedirem conselhos.

“Seguinte: o Caco, meu filho mais velho, você conhece, foi parado numa blitz aí onde você está. Ele tava com maconha, cara, acredita? O Caco, com maconha? E ainda se apavorou e fez a burrada de dizer que não era dele.”

“Porra, Luiz. Que você quer que eu faça?”

“Cara, pelo amor de deus, me quebra essa. O Caco é um garoto legal, estudioso. Fez uma puta burrada, mas não merece se ferrar por causa disso. Fala com os caras, explica pra eles.”

O fato é que o Caco era, mesmo, um garoto legal. Não merecia ser preso, do mesmo jeito que não mereciam aqueles ladrões de galinha todos. Resolveu ir até onde tinha combinado com a PM montar o bloqueio daquele começo de fim-de-semana prolongado. Chegando lá veria se dava para fazer alguma coisa. Vestiu-se e foi a pé mesmo para não chamar atenção.

De longe viu as viaturas de giroflex ligado e o Caco sentado no meio fio com a cabeça baixa, apoiada nas mãos. Aproximou-se do tenente que comandava a operação, cumprimentou e explicou que o rapaz era filho de um amigo. Perguntou se o menino estava bem quando foi parado. “Tava, delegado. Nem bebido nada tinha. Fez bafômetro e tudo.” “A documentação tá em ordem?” Estava. “Quanto ele tava carregando?” “Umas dez gramas.” Deixou passar batido o erro de concordância. Pensou um pouco, tomou coragem. “Tenente, tem jeito de livrar a cara do menino? Eu me responsabilizo por ele.” Liberou, claro. Aliás, nem Miguel nem Caco tinham como saber disso, mas o tenente ia liberar de qualquer jeito. Ficou com pena do moleque.

Entrou no carro do filho do amigo com o menino no banco do passageiro e foi para casa. No caminho, deu-lhe uma bronca de deixar calo e mandou o garoto ligar para o pai, dizer que estava tudo em ordem e que passaria a noite na casa do “tio”. Estacionou na rua e entraram. Mandou o moleque dormir no sofá. O pai viria no dia seguinte e seguiria o menino de carro até São Paulo para ter certeza de que não iria se meter de novo em encrenca.

Tomavam café-da-manhã quando Luiz chegou, agradecendo, com cara de quem está quase chorando de vergonha. E trazendo uma garrafa de uísque dessas que custam quase metade do vencimento de um delegado em começo de carreira. “Que é isso, Luiz. Não posso aceitar.” “Bobagem, Mike. Isso não é propina nem nada, é uma demonstração de gratidão. Aceita, por favor; eu vou me sentir menos mal se você aceitar.”

***

Foi transferido para a Corregedoria na Capital depois de alguns anos de bons serviços. A aquela altura já tinha uma respeitável coleção de garrafas de puro malte, entre outras coisas.

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