15 de fev de 2009

Mal-Entendido

“Que loucura”, pensou, enquanto acendia um cigarro no teto do prédio, único lugar do banco onde era permitido fumar. “Quem diria, um tempinho atrás, que eu ia estar nessa?" Cobertura na Vila Nova Conceição, carros importados na garagem do prédio, filhos no Graded, motorista para levar para cima e para baixo. "Como é que faço pra pagar tudo isso agora? Vai ser difícil, mas a gente dá um jeito. Vamos ter que cortar algumas coisas, claro, as crianças vão ter dificuldade para se adaptar. Mas algum jeito, a gente dá. O apartamento tá pago, até aí, tudo bem. Mas com condomínio de dez paus? Sem chance!”

Fumava e andava de um lado para o outro, tentando imaginar como ia explicar para a mulher que o trader superstar que ele era tinha feito uma burrada enorme. Que o hedge tinha desmontado e estourado na cara dele. Que ia para a rua, com certeza, assim que contasse para os sócios.

“Mas tudo bem, vai dar certo. A gente tem uma grana guardada. E com a venda do apartamento dá pra comprar um lugar mais simples e ainda sobra um bom pedaço. A gente se aguenta por uns tempos até a poeira baixar e eu arrumar outra coisa. Todo o mundo sabe que não foi culpa minha, que o mercado tem dessas coisas. Eu sou bom e o pessoal sabe disso. Pode até ser que numa corretora pequena, num banco menor, mas alguma coisa em arranjo. Pôxa, quem sabe eu volto a dar aula enquanto isso? Encaro a coisa como sabático, não como demissão!”

Estava resignado. Sabia o que ia acontecer e estava em paz com a situação. A vida tem altos e baixos, e coisa e tal. Aliás, só resignado, não: estava tranqüilo, pela primeira vez em um bom tempo. Mais do que isso. Por incrível que pareça, estava até feliz. A idéia de passar um tempo longe da pressão da mesa de derivativos parecia cada vez mais atraente. Ia dar tudo certo.

Chegou mais perto do parapeito para ver, provavelmente pela última vez, o jogo de luzes que formavam os holofotes da fonte do saguão externo do prédio. Sorriu, deu mais uma tragada e esticou o braço para jogar a bituca lá embaixo. Na mesma hora, um carro furou o farol da Tabapuã e foi pego em cheio por um ônibus que vinha pela Faria Lima. Somados o corpo meio projetado para fora do prédio, o impulso para jogar o cigarro a uma boa distância e o susto da batida, caiu.

Ninguém, nem a mulher, nem a mãe, imaginou que não tivesse sido suicídio.

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