24 de abr de 2009

Conversinha

"Eu não quero ir. Quero ficar aqui em casa."
É você quem sabe.
"Então tá."
Mas você sabe o que vai acontecer. Não sabe?
"Não vai acontecer nada. Dessa vez, não."
Não diga que eu não avisei.
"Para!"
Então vamos.
"Não, por favor. Eu não quero. Não gosto de ir lá fora."
Mas eu quero. Gosto. Preciso.
"Não."
Tá.
"Para, por favor. Para. Para..."
Você sabe que só vou parar quando sairmos.
"Não!"
Oquêi...
"Para, eu não aguento mais..."
...
"Para... por favor... eu não consigo mais fazer isso."
...
"Tá bom. Vamos."
Você não está esquecendo nada?
"Ai... não... vamos só dar uma volta desta vez? Só desta vez?"
Não é assim que as coisas funcionam. Você sabe. Só tem um jeito de você se ver livre de mim.
"Mas você sempre volta."
Tá. Só tem um jeito de você se ver livre de mim por um tempo. Pega a faca.
"Não, não quero!"
PEGA A FACA! PEGAFACA! PEGAPEGAPEGAPEGAFACA!
"Para, pelo amor de deus... eu pego... mas para de gritar, senão as pessoas vão ouvir tudo."
Você sabe muito bem que não vão.
"Mas se você não parar, eu vou gritar também. E as pessoas vão ouvir."
Então pega a faca e fica quietinha.
"Tá. Tô indo."

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O QUE VOCÊ TÁ FAZENDO? PARA! PARA!
"NÃO! CHEGA! ACABOU! NÃO VOU MAIS FAZER O QUE VOCÊ MANDA!"
PARA DE GRITAR AS PESSOAS VÃO OUVIR...
"NÃO! NÃO VOU MAIS FAZER O QUE VOCÊ MANDA! E VOU GRITAR O QUANTO BEM ENTENDER!"
Se acalma, por favor... vamos conversar...
"NÃO, CHEGA DE CONVERSAR, VOCÊ SEMPRE ME ENGANA! CHEGA!"
Não faz isso... não faz isso não... faz..."
"Isso."

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O vizinho do lado chamou o zelador, que chamou o proprietário, que tinha a chave da kitchenette. Entraram todos e deram de cara com dona Ziquinha caída no centro daquilo que parecia um mar de seu próprio sangue. Chamaram a polícia. Um investigador vomitou ao abrir o freezer em busca de gelo e encontrar dúzias de orelhas, cada uma em seu envelope Zip-Loc.

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