11 de jun de 2009

Predadores

Uma coisa que nunca vou entender é por quê diabos as pessoas são incapazes de admitir que são, sim animais. Animais como quaisquer outros. Tá bom, que seja, não como quaisquer outros porque vivem em sociedade, em grupos muito maiores do que recomendariam seus instintos e, por isso e para isso, têm que aceitar certas regras. Já diziam os xarás do tigre do Calvin e daquele cara do Lost.

Cada um de vocês é um primata. Só primata, não: primata e predador. Nós somos uns monstros de uns predadores territoriais. Altamente bem-sucedidos, diga-se. Sabem por que, entre outros motivos, a evolução nos deu um cérebro tão grande? Porque podia. E por que podia? Porque a dieta dos nossos antepassados incluía muito mais proteína do que a dos outros primatas superiores. Por isso dava para desviar uma quantidade maior de matéria-prima para a massa cinzenta.

Esses olhos que você tem na frente da cara? Traço típico de mamífero predador: de leão, de lobo, de carcaju, de ariranha. Olhos com eixos paralelos dão noção de distância, para saber onde, exatamente, está o bichinho que você vai comer daqui a pouco. Olhos colocados ao lado da cabeça — como os do carneirinho, da vaquinha, da cabrinha, do coelhinho — dão uma visão de campo muito maior, para saber de onde vem o cara que quer te comer. Quem é predador pode se dar ao luxo de não ter visão periférica tão ampla: o mais provável é que ninguém vá se meter com ele, ou ela.

Por que é mais fácil correr rápido do que correr longe? Por que alguém que esteja numa forma física apenas razoável consegue correr 100 metros rasos num tempo, afinal de contas, não tão distante assim do recorde mundial, mas é absolutamente incapaz de correr uma maratona? Porque predador não tem que correr longe. Só tem que correr mais do que a presa. Se puder correr longe e rápido, tanto melhor, parabéns a quem faz isso e tudo o mais. Mas não é a nossa aptidão natural.

Admitam, queridos. Pelos critérios que nós mesmos estabelecemos culturalmente, o homem é mau (agora vocês entenderam porque não falei do Rousseau no primeiro parágrafo, espero). Só que os critérios são cretinos, sinto informar. E causam muito mais problemas do que resolvem.

Falando sério, acho mesmo que a maioria dos nossos grandes problemas sociais vem do fato de que a maioria das pessoas pensa que é algo especial, criado à imagem e semelhança seja lá de quem ou do quê for, ou para cumprir seus desígnios. Nesse sentido, até muita gente que se dia atéia se comporta como se não fosse. Acordem, crianças: cada um de vocês é, sim, um predador. É, no fundo, muito pouca coisa além de um bicho que come outros bichos (nem me deixem começar a falar de vegetarianismo). E a sua vida vai ficar bem mais fácil na hora em que vocês admitirem.

Quem sabe que é bicho aprende a lidar com isso. E não estoura na hora errada. Nem pede arrêgo se não precisar. Sabe a reação que você tem quando leva um susto? Ou quando fica muito, muito puto? Isso se chama fight-or-flight response (claro que eu podia escrever “reação de lutar ou fugir” mas fight-or-flight soa muito melhor e, além disso,estou montando um case para outro texto). Não vou entrar em detalhes de sistema nervoso simpático, hipotálamo ou acetilcolinas. Mas o fato é que, sob condições de estresse, o corpo se prepara para lutar ou fugir. Infelizmente, hoje em dia, a maioria das pessoas está tão cagona (diga-se de passagem, a expressão vem de um dos efeitos da tal reação) que vai direto pro lado do flight, simplesmente porque é incapaz de lidar com a sensação. Quem sabe o que está sentindo, não surta com isso. Usa. Se for fight, fight. Se não der pra encarar, paciência, flight. Só que o povo está tão desacostumado que reage a qualquer coisinha e pronto, já viu, ou arreda pé sem motivo, ou solta os cachorros em cima de alguém que não tem nada a ver com nada.

Aceitem, meus caros: vocês são, sim, uns monstrinhos. Encarem a realidade e facilitem as próprias vidas.

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